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A aquisi? do portugu?como segunda l?ua pelo surdo

Trabalho enviado por: Marilia Dagmar Gondim Machado

Data: 27/08/2010

UNIVERSIDADE ESTADUAL VALE DO ACARAÚ
PRÓ-REITORIA DE EDUCAÇÃO CONTINUADA
CENTRO DE DESENVOLVIMENTO HUMANO (CDH)
Curso de Especialização em Educação Especial
A AQUISIÇÃO DO PORTUGUÊS COMO SEGUNDA LÍNGUA PELO SURDO
Marilia Dagmar Gondim Machado
FORTALEZA CEARÁ
2007

RESUMO

Esta monografia teve como objetivo verificar a produção textual dos surdos em língua portuguesa. Para tanto, foram colhidos quatro textos redigidos por um aluno adulto de cada série de 6ª a 9ª, de uma escola pública estadual para surdos localizada na cidade de Fortaleza. A partir dessas produções escritas, procurou-se observar como as mesmas foram desenvolvidas e quais foram os aspectos divergentes do português presentes nelas. Para apreender a realidade, adotamos a metodologia de pesquisa que pode ser classificada como qualitativa dentro da abordagem etnográfica. A respeito da aquisição do português como segunda língua, fizemos um estudo bibliográfico. Em seguida, começamos uma fase exploratória, que se constituiu de observação, coleta sistemática de informações e seleção de aspectos relevantes. Como embasamento teórico para o estudo, foi desenvolvida uma breve retrospectiva histórica do surdo e ainda foram analisadas as abordagens educacionais: Oralismo, Comunicação Total e Bilingüismo com suas implicações para o ensino escolar desse aluno. Foram utilizados autores como: Brito (1993), Góes (1996), Felipe (2001), além de consultas às contribuições de Vygotsky (1987) sobre sócio-interacionismo, para subsidiar teoricamente o trabalho. O estudo permitiu concluir que o aluno surdo, que utiliza a Língua de Sinais como meio natural de comunicação, apresenta uma série de dificuldades ao produzir textos em português, como: falta de flexões verbais e nominais, falta ou excesso de preposições, conjunções, conectivos, artigos e outros. Além da transcrição equivocada de certas palavras e o uso de frases curtas. Portanto, o estudo surgiu de uma necessidade própria do professor em sala de aula, de instigar e motivar o uso da língua portuguesa escrita, a partir de um trabalho de produção individual e de constante auto-correção, ou seja, o estudante produz o seu texto e com o auxílio do profissional da educação, ele vai aos poucos o reconstruindo, com o intuito de aperfeiçoá-lo. A abordagem utilizada tenta mostrar que o surdo, como membro de uma comunidade diferente com cultura, hábitos e língua própria, tem o direito de aprender uma segunda língua, na modalidade escrita, para que possa se relacionar com a comunidade majoritária.

SUMÁRIO

Introdução
Capítulo I - Considerações sobre a Comunidade Surda e a Língua Brasileira de Sinais (Libras)
Síntese histórica sobre a Comunidade Surda
A Língua Brasileira de Sinais (Libras) e a aquisição desta pela surdo
Cultura, Identidade e Comunidade Surda
As entidades participantes na vida educacional, cultural e social dos surdos
FENEIS
APADA
Centro de Capacitação de Profissionais da Educação e de Atendimento às Pessoas com Surdez CAS
Confederação Brasileira de Desportos de Surdos CBDS
As Metodologias utilizadas para educar surdos
Oralismo
Comunicação Total
Bilingüismo
Capítulo II Conhecendo o Instituto Cearense de Educação de Surdos ICES e a aquisição do português como segunda língua
Conhecendo a escola pesquisada.
A aquisição do português como segunda língua pelos surdos no Instituto Cearense de Educação de Surdos ICES
Analisando os resultados da aquisição do português como segunda língua pelo aluno surdo
Considerações finais
Referências

INTRODUÇÃO

O presente estudo é resultado da prática educacional em torno da aquisição do português como segunda língua pelo surdo, que aponta diversas dificuldades no processo de construção da leitura-escrita. Neste caso, a língua portuguesa será para ele a sua segunda língua, tendo em vista que, a oralização deixa de ser a base do processo de alfabetização e letramento.
O surdo vive e atua no mundo como qualquer outro ser humano. Ele apenas possui uma característica que o diferencia dos demais: a surdez. Apesar da sua diferença que é bastante peculiar, o surdo é um sujeito social que tem em si impressas as diferenças individuais, as influências sociais, educacionais, culturais e históricas que compõem o seu cotidiano.
Assim, a criação dos sinais pela Comunidade Surda aparece como meio natural de comunicação e instrumento do pensamento, para que possam atuar e comunicar-se. Enquanto a Língua de Sinais é espontânea para o surdo, o conhecimento da língua falada e o decorrente domínio da escrita não ocorrem naturalmente. A Língua de Sinais é para ele, a sua língua natural (L1). No caso do Brasil, a Língua portuguesa é considerada como segunda língua (L2), assim como, por exemplo, o inglês é para as pessoas ouvintes.
Neste estudo, teremos como objetivo demonstrar que o aluno surdo pode aprender, conhecer e interpretar uma segunda língua que não seja a sua língua natural de acesso, através de práticas alternativas em observância às suas necessidades especiais. E ainda, devemos identificar a importância da Língua portuguesa como língua oficial do país em relação ao surdo (L2).
As línguas ditas L2 necessitam de metodologias e recursos adequados para seu ensino e aprendizado, mantendo sempre como referencial a língua L1. A Língua Brasileira de Sinais, ou seja, a Libras não é apenas uma ferramenta para facilitar a comunicação, mas uma língua completa que o surdo deve aprender para que possa se desenvolver em muitos sentidos, e principalmente, conhecer a língua escrita do seu país que, no caso do Brasil é o português.
Este estudo parte do pressuposto de que a modalidade vísuo-espacial é o canal perceptual adequado à aquisição e utilização da linguagem pelas pessoas surdas, tendo implicações diversas para o seu desenvolvimento pessoal.
O motivo da investida nesta pesquisa foi o nosso trabalho como professora com os alunos na oficina de redação, no Instituto Cearense de Educação de Surdos ICES, sendo uma escola especial que atende 476 alunos surdos, distribuídos na educação infantil e fundamental.
Na oficina de redação, os estudantes têm a oportunidade de conhecer os diversos tipos de texto, como: bilhetes, convites, cartões de apresentação, cartões postais, cartas, biografias, dentre outros. Percebida a diferença entre os textos e reconhecida as características específicas de cada um, o aluno deve tentar produzi-los de forma individual e similar aos modelos apresentados pela professora.
Assim que os textos são produzidos, os alunos iniciam a auto-correção em grupo, em que devem observar se o que escreveram está bom, contém algum erro e precisa ser melhorado.
Depois da fase de aperfeiçoamento das produções, os melhores textos são selecionados pela professora e enviados para o Jornal do Surdo, jornal mensal do ICES, onde os alunos têm a oportunidade de ver os seus trabalhos e poder compará-los com os outros dos colegas. A consciência dos estudantes surdos de que aqueles escritos que mais se destacam são escolhidos para serem colocados no jornal, serve de estímulo e motivação para que eles se empenhem cada vez mais no desenvolvimento da tarefa.
Além disso, há algo bastante utilizado pelos alunos que é o Correio do Surdo. Este correio trata-se de uma forma dos estudantes utilizarem os conhecimentos adquiridos na oficina de redação e escreverem bilhetes, cartas ou até mesmo convites, para os colegas da mesma sala ou de outras, com o intuito de estabelecer uma comunicação com os seus pares usando o português escrito.
A linguagem tem papel fundamental na construção do conhecimento, por isso foi necessária uma análise sobre as sérias dificuldades apresentadas nas produções escritas dos alunos surdos, tanto em relação ao sentido quanto aos aspectos coesivos.
O ensino do português como segunda língua neste estudo foi direcionada em dois aspectos: sob uma proposta bilíngüe, em que a Libras deve ser respeitada como a língua natural do surdo, e sob uma visão sócio-interacional1 do discurso, em que: o conhecimento sistêmico, o conhecimento de organização textual e o conhecimento de mundo ligado às práticas sociais, auxiliaram no aprendizado do português e a mesma será utilizada nos diversos contextos em que vive. Conforme Vygotsky (1987, p.125): uma palavra adquire o seu sentido no contexto em que surge: em contextos diferentes, altera o seu sentido.
Serviram como sujeitos desta pesquisa, quatro alunos de cada série, de 6ª a 9ª, na faixa etária de 18 a 50 anos. Outros indivíduos também foram relevantes para o sucesso da mesma, tais como: coordenadora pedagógica, professores surdos e intérpretes.
No decorrer deste estudo, as atividades desenvolvidas procuraram responder o seguinte questionamento: É relevante para o aluno surdo que ele aprenda a ler e escrever em língua portuguesa? E como ocorre a aprendizagem do português pelo surdo? Tal problemática levantada é preocupante, pois por não haver o feedback via audição pelos surdos, torna-se muito difícil a compreensão do mecanismo do português, nos moldes tradicionais da escola, principalmente para aqueles que possuem perda severa à profunda.
Surgiu ainda outro questionamento: O escrever e ler em Língua de Sinais, para o surdo, é o caminho natural em todo esse contexto ou será que para uma criança surda submetida a uma educação bilíngüe bastaria que ela lesse e escrevesse em sua segunda língua e utilizasse a sua primeira língua (nesse caso, a Libras), como comunicação presencial e imediata? Como será proporcionado o ensino do português com estratégias baseadas na aquisição de segunda língua?
Na busca de respostas às questões apresentadas, formulamos uma hipótese para direcionar o nosso trabalho: Os surdos, na maioria dos casos desconhecem a estrutura da língua portuguesa escrita e a rejeita por não encontrar funcionalidade em seu uso. Isto é um obstáculo que dificulta muito a sua aprendizagem.
Para apreender a realidade, adotamos a metodologia de pesquisa que pode ser classificada como qualitativa dentro da abordagem etnográfica. A respeito da aquisição do Português como segunda língua pelo surdo, fizemos um estudo bibliográfico. Em seguida, começamos uma fase exploratória, que se constituiu de observação, coleta sistemática de informações e seleção de aspectos relevantes.
No presente trabalho, dividido em dois capítulos, faremos no primeiro algumas considerações sobre a Comunidade Surda onde foram investigadas a sua história, identidade e cultura. Ainda no primeiro capítulo, foram levantadas algumas características da Libras, a sua importância para o surdo e as metodologias empregadas na educação dos mesmos. No segundo capítulo, é apresentada uma pesquisa feita no Instituto de Educação de Surdos ICES e como acontece a aprendizagem da língua portuguesa por esses alunos. No mesmo capítulo, foram estudadas as entidades que auxiliam e participam na vida educacional, cultural e social desses estudantes.
Para investigar a realidade, analisamos algumas produções escritas dos alunos surdos, bem como foram feitas entrevistas com os professores surdos e intérpretes. O exame das informações coletadas e a análise da realidade observada, possibilitou a elaboração desta monografia, que visou ampliar nossos conhecimentos, além de fornecer uma melhor reflexão sobre o aprendizado efetivo do português através da Libras, derrubando as barreiras entre surdos e ouvintes, para que ao menos ocorra o diálogo.

CAPÍTULO I CONSIDERAÇÕES SOBRE A COMUNIDADE SURDA E A LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS(LIBRAS)

Na sociedade em que vive, o homem ou se apropria de um instrumento que lhe é oferecido ou o elabora com todas as peças necessárias, como ocorre com o surdo. Neste caso, ele ainda o faz inteligível no âmbito de suas relações familiares. Este instrumento de fundamental importância à sua sobrevivência chama-se linguagem, que é sempre um sistema de sinais articulados, podendo ser esses sinais sonoros, visuais, tácteis, ou de outra natureza. De resto, o homem não é só um animal que utiliza instrumentos, como alguns outros, mas é talvez o único que os constrói, se não os acha elaborados.
O desenvolvimento da linguagem, característica inerente ao homem, é a essência da aquisição de conhecimentos. A linguagem é a ferramenta necessária ao homem na transferência de conhecimentos, aprendizagem e experiências individuais, possibilitando por meio desta a transformação do meio ambiente.
De acordo com Felipe (2001, p. 20), uma das semelhanças entre as línguas é que os usuários de qualquer língua podem expressar seus pensamentos diferentemente, por isso uma pessoa que fala uma determinada língua, irá utilizá-la de acordo com o contexto em que se está inserido, ou seja, não conversamos com um amigo íntimo da mesma forma que com um estranho. Outra similaridade é que todas as línguas possuem diferenças quanto ao seu uso em relação à região, ao grupo social, à faixa etária e ao gênero. O ensino oficial de uma língua sempre trabalha com a norma culta, que é utilizada na forma escrita e falada e sempre toma alguma região e um grupo social como padrão.
O surdo não se diferencia dos demais apenas na linguagem, mas também na sua história, no seu convívio social e educação. Esses elementos darão origem à Comunidade Surda, onde o surdo encontra pessoas com valores, idéias e histórias de vida semelhantes a sua e percebe que faz parte de uma minoria que coaduna com a sua realidade.
Este capítulo tem, por finalidade, apresentar uma síntese histórica sobre a Comunidade Surda, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e a sua aquisição e as metodologias utilizadas na Educação de Surdos.

1.1.SÍNTESE HISTÓRICA SOBRE A COMUNIDADE SURDA

Na antigüidade, as pessoas diferentes, inclusive os surdos, eram considerados não-humanos: seres desqualificados e inferiores. Os surdos eram vistos como aqueles que possuíam defeito de nascença e que, portanto, como animais que precisam competir pela sobrevivência, eram inferiores aos outros animais homens e deveriam ser eliminados. Dessa forma, os surdos foram excluídos da sociedade antiga, sendo proibidos de casar, possuir ou herdar bens.
Mesmo em nível religioso2, as pessoas diferentes e os doentes eram considerados impuros, castigados e condenados por Deus. Segundo esta teologia, Deus castigava alguém, enviando-lhe doenças ou permitindo o nascimento de descendentes com doenças físicas.
Ainda nos primórdios da civilização, alguns povos dispensavam tratamentos bárbaros aos surdos, como: os chineses que lançavam - os ao mar; os Espartanos jogavam os do alto dos rochedos e os Atenienses eram enjeitados e abandonados em praças públicas ou nos campos.
Com o nascimento de Jesus, o Filho de Deus para os cristãos, os surdos deixam de ser considerados impuros, sob a crença cristã de que todos seríamos filhos de Deus e amados pelo Pai, independente do que teríamos, seríamos ou faríamos, mas pelo que éramos: seres humanos.
Esta alteração cultural e religiosa apresentou grande avanço na transformação da mentalidade da época, porém não foi suficiente para eliminar totalmente o forte preconceito contra os surdos.
Segundo Santo Agostinho3, filósofo e teólogo cristão de profunda influência na filosofia ocidental e no cristianismo, a fé somente seria obtida pela captação do Sermão.
Aristóteles também emitiu opiniões em relação aos surdos e sua educação. Para ele, a Educação somente poderia ser obtida através da audição, pois alguém que não conseguia ouvir, não seria capaz de aprender nada. Portanto, como o surdo não tinha linguagem, ele não era considerado humano e não tinha possibilidade de desenvolver as suas faculdades intelectuais.
Então, durante muitos anos, foi iniciado um trabalho de recuperação dos Surdos-Mudos, no intuito de humanizá-los, ou seja, tentar dar fala a eles.
A igreja católica, até a Idade Média, acreditava que as suas almas não poderiam ser consideradas imortais, porque eles não podiam falar os sacramentos.
Conforme Barbosa (2004, p. 09), Bartolo della Marca dAncona, advogado e escritor do século XIV, foi o primeiro a aludir sobre a possibilidade do Surdo4 poder aprender através da Língua de Sinais ou da língua oral.
Até o século XV, não havia nenhum interesse na educação dos surdos, pois eram consideradas pessoas primitivas, sendo relegadas à marginalidade na vida social. Não havia direitos assegurados, nem uma cultura suficientemente desenvolvida que aceitassem a sua diferença.
No ocidente5, os primeiros educadores de surdos de que se tem notícia, começaram a surgir a partir do século XVI, sobretudo na Espanha, França, Inglaterra e Alemanha. Nesta classe de pessoas, podem-se citar os nomes: Rudolphus Agrícola (1443 1485), Girolano Cardano (1501 1584), Pedro Ponce de Leon (1510 1584), Juan Pablo Bonet e Abbé Charles de lEpee (1712 1789).
Em meados do século XVI, Girolano Cardano propôs um conjunto de princípios que prometia uma ajuda social e educacional para os surdos, em que este podia pensar, compreender símbolos gráficos ou combinações deles associados a objetos ou figuras que os representassem. Assim, no início de 1555, surgiu a educação oral para crianças surdas. Algumas crianças surdas de famílias nobres aprenderam a falar e a ler para poderem ser reconhecidas como pessoas nos termos da lei e herdar títulos e propriedades de suas famílias.
Nos Estados Unidos, em 1817, Thomas Hopkins Gallaudet, com Laurent Clerc fundaram o Asilo Americano para Educação e Instrução dos Surdos Mudos (atual Universidade Gallaudet). Nesta época, houve uma grande valorização e aceitação da Língua de Sinais, aumentando o número de surdos alfabetizados na França, nos Estados Unidos e em outras partes do mundo.
Pedro Ponce de Leon (1510 1584)6, um frade Beneditino espanhol, que segundo depoimento escrito por alguns de seus alunos, utilizava a combinação de sinais com um esforço concentrado na escrita. Inventou o alfabeto manual transformando-o em instrumento de acesso à escrita e à leitura para posteriormente, enfatizar a fala.
De acordo com Barbosa (2004, p.10), o fundador da primeira escola pública para surdos no mundo, o Instituto Nacional para Surdos-Mudos em Paris, foi Charles Michel de LEpée, conhecido como Abbé de LEpée7. Começou a ensinar os surdos em 1760 através da religião, já que possibilitava o acesso à cultura e ao letramento. LEpée inventou os sinais metódicos que foi o resultado da combinação de sinais com o francês escrito para integrar à gramática da língua, e ainda, reconheceu que esta Língua de Sinais desenvolvia-se e servia como transmissora de conhecimentos essenciais aos surdos.
Outra grande contribuição de LEpée para a educação do surdo foi a mudança da educação individual para a coletiva, sem privilegiar apenas aqueles que podiam arcar com o trabalho particular de um educador.
O século XVIII foi considerado o período mais próspero da educação dos surdos, pois houve a fundação de várias escolas para surdos. Além disso, qualitativamente, a educação do surdo também evoluiu porque através da Língua de Sinais, os surdos podiam aprender e dominar diversos assuntos, e exercer diversas profissões.
Como relata Sacks (1990, p.37):
Esse período que agora parece uma espécie de época áurea na história dos surdos, testemunhou a rápida criação de escolas para surdos em todo o mundo civilizado; a saída dos surdos da negligência e da obscuridade; sua emancipação e cidadania; a rápida conquista de posições de eminência e responsabilidade escritores, engenheiros, filósofos e intelectuais surdos, antes inconciliáveis, tornavam-se subitamente possíveis.
Em 1857, o diretor e professor surdo francês, Ernest Huet que era discípulo de LEpée, trouxe uma carta de recomendação da França ao Reitor do Imperial Colégio de D. Pedro II para facilitar a abertura da primeira escola de surdos no país. Então, Huet foi o fundador do Instituto dos Surdos Mudos, atual Instituto Nacional de Educação de Surdos- INES, que usava o método combinado. Não foi fácil à Huet iniciar a constituição da escola, pois naquele tempo, não havia no Brasil referência alguma a respeito da Educação de surdos, e inclusive as famílias relutavam em educá-los.
Em 1878, em Paris, foi realizado o I Congresso Internacional sobre a Instrução de Surdos. Entre outros importantes debates, teve destaque a utilização da mímica natural por parte dos educadores e alunos surdos para que a compreensão da língua falada fosse melhor aprendida pelos surdos. Para isso, seria necessário o respeito às diferenças entre as duas línguas. Foi também nesse congresso que os surdos conquistaram o direito de assinar documentos.
O escocês Alexander Graham Bell8, o inventor do telefone, abre uma escola oralista para surdos, onde defende o ensino da fala e que o surdo não poderia lecionar para outros surdos. Para Bell, assim como para grande parte dos educadores oralistas, o aprendizado da linguagem oral permitiria aos surdos a integração social, rompendo a barreira lingüística entre ouvintes e surdos. Bell resistia à criação de escolas especiais para surdos porque temia a formação de comunidades surdas com tendência ao casamento endógamo, onde seriam criadas colônias de surdos dentro da sociedade nacional, ou seja, a sua principal preocupação era que os surdos constituíssem uma maioria de indivíduos que seriam a variação não-ouvinte da espécie humana.
Pode-se perceber através da história dos surdos, que os mesmos sempre foram uma minoria lingüística inserida em uma maioria dominante9, que impunha ordens aos mais fracos e incapazes, devendo esses obedecer e aceitar passivamente aquilo que lhes era mandado.
Enfim, os surdos eram escondidos pelas suas famílias que tinham vergonha de os ter concebido, suas famílias eram esterilizadas ou as crianças surdas eram transformadas em cobaias de pesquisas.
A discriminação não passa somente por leis e direitos como ocorreu na Antigüidade, continuando até os nossos dias atuais. No caso dos surdos, pensa-se que o domínio da Língua de Sinais é suficiente para incluí-los na sociedade, mas a sua inclusão passa por uma transformação muito mais profunda no pensar, ver e agir de cada um. A discriminação vem da forma de encarar o outro como alguém menor / menos capaz do que o eu. Isto, no entanto, é algo cultural, que nenhuma lei no mundo sozinha pode mudar.
Atualmente no Brasil, os serviços prestados aos surdos ainda são muito poucos. Exemplo disso são alguns programas apresentados pela televisão que sequer possuem legenda oculta ou interpretação em Libras. Há um total descaso quanto à necessidade de intérpretes em locais públicos como hospitais, delegacias, fóruns, etc.
Os surdos ainda continuam até os dias de hoje, sendo vítimas de preconceito. Eles são discriminados, muitas vezes, até mesmo pela própria família. A Comunidade Surda precisa ter a sua cultura10 e língua valorizadas para que possam sentir-se seguros e a sua identidade seja fortalecida.
Portanto, o surdo apresenta algumas características específicas, tais como: diferenças humanas, o multiculturalismo, a construção divergente de identidades, o desenvolvimento de tecnologias diferenciadas para a sua educação, dentre outras. Esses aspectos mencionados, fazem dele um sujeito participante da Cultura Surda, sendo diferente da ouvinte, mas não é um ser incapaz de atuar, trabalhar, estudar e conviver em sociedade. Para isso, basta que as suas limitações como sujeito multicultural sejam respeitadas.
A LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS (LIBRAS) E A AQUISIÇÃO DESTA PELO SURDO
De acordo com Felipe (2001, p.120), o mais antigo registro que menciona a Língua de Sinais é de 368 a.C., escrito pelo filósofo grego Sócrates, quando perguntou ao seu discípulo: Suponha que nós, os seres humanos, quando não falávamos e queríamos indicar objetos, uns para os outros, nós o fazíamos, como fazem os surdos-mudos, sinais com as mãos, cabeça, e demais membros do corpo?11
A comunicação por sinais foi a solução encontrada também pelos monges beneditinos da Itália, cerca de 530 d.C., para manter o voto do silêncio. Mas pouco foi registrado sobre esse sistema ou sobre os sistemas usados por surdos até a Renascença, mil anos depois.
Até o fim do século XV, não havia escolas especializadas para surdos na Europa porque, na época, eles eram considerados incapazes de serem ensinados. A maioria das pessoas surdas foram excluídas da sociedade porque não falavam, algo que para a época, a fala estava etimologicamente ligada ao pensamento e não ao simples ato de emitir sons articulados.
Segundo a Política Educacional para Surdos do Rio Grande do Sul12, Surgiram várias propostas educacionais, porém a Educação das pessoas surdas através das Línguas de Sinais continuou sendo a preferida por eles. Conforme relato anterior, na França, o Abbé Charles Michel de LEpee foi o fundador da primeira escola pública para surdos em Paris, sendo o professor que mais contribuiu para o surgimento da Língua de Sinais, pois considerando insuficiente, as mímicas e gestos criados por eles como meio de comunicação, inventou os sinais metódicos. LEpee em sua pesquisa junto aos surdos, começa a transmitir a idéia de que a Língua de Sinais seria a transmissora de conhecimento entre os surdos.
No Brasil, o Instituto Nacional da Educação de Surdos INES, foi fundado por Ernest Huet, em 1857. O Instituto contribuiu para o desenvolvimento da Língua Brasileira de Sinais, que surgiu da mistura das mímicas e gestos, já usados pelos surdos das várias regiões do Brasil, com a Língua de Sinais Francesa.
O Instituto contribuiu, também para o fortalecimento da Libras porque, em 1896, houve nesta escola um encontro internacional que avaliou a decisão do II Congresso Internacional sobre a Instrução de Surdos13 que tinha ocorrido em 1880, em Milão. Assim, o Instituto continuou como um centro de integração para o desenvolvimento da Libras, pois segundo o relatório do Diretor Tobias Rabello Leite, de 1871, esta escola já possuía alguns alunos vindos de várias partes do país e após dezoito anos retornavam às cidades de origem levando com eles a Libras.
De acordo com Felipe (op. cit., p. 139), o respeito pela Libras originou a primeira pesquisa à respeito desta língua, que foi publicada em 1857, sendo denominada: Iconografia dos Signaes dos Surdos-mudos (ou seja, a criação dos símbolos). Este livro mostrava através de desenhos e explicações destes, os sinais mais utilizados pela Comunidade Surda do Rio de Janeiro. Foi feito por Flausino José da Gama, ex-aluno do Instituto dos Surdos-Mudos, que ao completar dezoito anos foi contratado pela escola para ser um repetidor, ensinando aos seus colegas, em Libras, os conteúdos das disciplinas, segundo o relatório do Diretor, Tobias Rabello Leite, de 187114.
Apesar de toda essa tentativa de reconhecimento da Língua de Sinais, a oficialização da Libras em lei, conforme relatado anteriormente, só ocorreu um século e meio depois, em abril de 2002. Nesse ínterim, o Brasil trocou a monarquia pela república, teve seis Constituições e viveu a ditadura militar. De acordo com Salles et al. (2004, p. 55), o longo intervalo deve-se às decisões arbitrárias tomadas no Congresso de Milão, em 1880, de proibição do uso da Língua de Sinais. Neste evento, ficou definido que o Método Oral é o mais adequado na educação do surdo, tornando-se o domínio da língua oral, condição básica para sua aceitação em uma comunidade majoritária. Esta ação foi implementada na Brasil em 1881.
A Libras quase mudou de nome e só voltou a vigorar em 1991, no Estado de Minas Gerais,...

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