Eu gosto de filmes policiais. Se eles envolverem intrigas políticas e os bastidores do poder, melhor ainda. Supostamente então, deveria achar eletrizante o drama que se segue à Operação Castelo de Areia, em que a Polícia Federal escarafuncha os arquivos da Camargo Corrêa, uma das maiores empresas do Brasil e dona de polpudos e polêmicos contratos com a administração pública. Mas não consigo. O caso tem cara de filme velho e sua parte política apresenta um enredo a que todos nós já fomos expostos à exaustão.
É sempre assim: a Polícia Federal faz uma operação de grande repercussão. O noticiário do dia é tomado por imagens de gente importante sendo presa. Engravatados espremendo-se na parte de trás de camburões são sucesso garantido de audiência. Horas depois, aparecem os vazamentos. Começam a pipocar nomes de políticos suspeitos de envolvimento com o esquema da vez. Eles ficam no centro do tiroteio por um ou dois dias e depois partem para o contra-ataque. Denunciam armações e acusam a PF de atuar politicamente contra eles. Se o acusado é da oposição, esmera-se para dizer que tudo não passou de um plano maquiavélico, normalmente atribuído ao ministro da Justiça, Tarso Genro. Se é do PT, a saída é acusar setores da PF que seriam remanescentes dos governos tucanos. Ao final, o que está em debate não é mais o suposto crime, mas a ação da polícia e suas eventuais conspirações.
Honestamente falando, acredito pouco nessas teorias conspiratórias. Os problemas que existem são mais consequência de falhas na condução dos inquéritos que de um grande plano para usar a Polícia Federal como arma política. Mas isso não torna a questão menos grave. Atropelos em inquéritos provocam dois sérios riscos: um é o de acusar injustamente os inocentes. Outro é de deixar escapar os culpados.
O caso da Operação Castelo de Areia é um bom exemplo dos erros e acertos da PF. Tudo começou com uma denúncia anônima de que um doleiro, conhecido no mercado por supostos serviços de lavagem de dinheiro, estaria a serviço de diretores da Camargo Corrêa. Acusações sem nome do autor normalmente não são um bom começo, mas a polícia foi criteriosa. Acompanhou os passos do doleiro e, depois de certificar-se que ele mantinha relações com a empreiteira, pediu a quebra de seu sigilo telefônico. Começaram, então, meses de escuta nas conversas dele e de seus interlocutores.
No meio disso, surgiram conversas em que os diretores da empreiteira discutiam doações a políticos. Falavam em dinheiro "por dentro" e "por fora". A suspeita, óbvia, era de que se tratava de um esquema de caixa dois. A PF não tinha outro caminho a não ser investigar. Qualquer outra atitude seria crime. O problema foi a forma como se deu essa investigação. A polícia não avançou em relação às conversas gravadas. Poderia, por exemplo, ter verificado na justiça eleitoral se os políticos citados tinham ou não contabilizado doações da empreiteira. Seria uma cautela justificável. A Camargo Corrêa é uma das maiores financiadoras do caixa um de campanha no Brasil. Isso não significa, de forma alguma, que ela não pudesse estar doando dinheiro "por fora", como sugeriam as gravações. Mas recomendava que, antes de encaminhar o inquérito à justiça, a PF fizesse um esforço suplementar para separar o joio do trigo.
Uma alternativa seria separar o caso em uma investigação própria. Tivesse feito isso, hoje a PF teria em sua mão arquivos e computadores da empreiteira capazes de confirmar ou descartar a suspeita. Poderia fechar o caso com muito mais eficiência dentro de alguns meses, ou então arquivá-lo sem expor os políticos e a si mesma a tantas suspeitas.
O mesmo aconteceu com a Operação Satiagraha, há pouco tempo. Hoje, discute-se mais as peripécias do delegado Protógenes Queiroz do que as acusações contra os políticos e empresários que ele prendeu. Para alguns, o policial é um herói. Para outros, um trapalhão. Melhor seria se ele fosse discreto.
É fundamental que a corrupção seja combatida e os corruptos presos. Para isso, a PF precisa ser conhecida por sua eficiência e não por sua pressa. A Operação Sanguessuga, que desmascarou um esquema de desvio de verbas públicas para compra de ambulâncias, foi um exemplo de inquérito concluído no tempo certo. Seus resultados causaram impacto imediato e desdobraram-se em processos sólidos, que tramitam na justiça. Se esse cuidado não é tomado, a ação da polícia, mesmo quando feita contra os alvos certos, pode desabar como um castelo de areia.
fonte: Jornal do Commércio Brasil