Texto: Suicídio, Parassuicídio e Desemprego de Ana Bernarda Ludemir
O desemprego vem se tornando a maior questão sócio-político-econômica do mundo ocidental desde a década de 70.
A termo "desemprego" sugere uma dimensão social que se caracteriza como uma relação com o processo produtivo. Refere-se aqui ao "desemprego involuntário", ou seja, a inabilidade de se vender à força de trabalho no mercado, portanto só aqueles que trabalham por salário podem se tornar desempregados. A diferença entre trabalhadores qualificados e não qualificados também é dramática em termos de chance e freqüência de tornarem-se desempregados. Para este grupo de trabalhadores, o desemprego, ou a sua ameaça, é um assalto à sua identidade e bem-estar social.
O mecanismo que liga o suicídio ao desemprego ainda não está totalmente compreendido. Existem evidências de que este expõe as pessoas potencialmente vulneráveis a "quebras", ecoando o ditado de Freud de que o "trabalho traz as pessoas para a realidade".
O mais importante a ser considerado é o estresse associado ao trabalho e às relações sociais no processo produtivo em uma sociedade de classes. A alienação da maioria da população no processo produtivo teria um maior poder explicativo na determinação da mortalidade. Conclui que o intervalo de tempo para o aparecimento do estresse durante o desemprego é curto e não contribui para a larga variação nas taxas de mortalidade, sendo os fatores que o antecipam os responsáveis pelas mudanças nas referidas taxas. O desemprego, durante a recessão econômica com reduzidas oportunidades de emprego, é a ligação dinâmica entre o estado depressivo e o suicídio.
Fenômeno complexo, o suicídio configura um assassinato, em que a vitima e o agressor é a mesma pessoa. A definição de suicídio implica inegavelmente de um desejo cociente de morrer e a noção clara de que o ato executado pode resultar nisso. O fato de estar consciente de que vai efetuar um ato suicida não elimina, no entanto, o estado de confusão mental que o individuo experimenta momentos antes da ação.
Nenhum dos estudos derivados é conclusivo por si só, mas, tomados coletivamente, apresentam evidencias históricas que o desemprego afeta a saúde de uma dada população, podendo levar ao aumento das taxas de suicídio. A questão que se coloca é se as pessoas com baixo nível de saúde são mais propensas a se tornarem desempregadas ou se é a experiência do desemprego que produz um efeito adverso no estado de saúde.
As mudanças no estado de saúde observadas em uma população submetida a períodos de desemprego e incerteza econômica instigam à criação de novas abordagens metodológicas que propiciem a articulação entre categorias explicativas que englobem os espaços macro e micro.
Existem causas imediatas predisponentes como perda de emprego, fracasso amoroso, morte de um ente querido ou falência financeira que funcionam como o último empurrão para o suicídio. À análise das características psicossociais do indivíduo, porém, revela os motivos que, ao longo da vida, o auxiliaram a estruturar o comportamento suicida. Pode mostrar as razões para morrer que estavam enraizadas no estilo de vida e na personalidade.
Mesmo sendo resultante de uma escolha individual, o suicídio também é visto como uma questão social. O pioneiro no estudo desse campo foi o sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917), com o clássico o suicídio, de 1897. Existem vários estudos comprovando a influencia da cultura, do ambiente e da religião sobre as taxas de suicídio, seja como facilitadores, seja como limitantes. A religião aparece, portanto, como um mecanismo de "proteção" contra o comportamento suicida (todas as crenças religiosas condenam o suicídio).
Durkheim defende a posição de que o suicídio é um fato social, ou seja, quando se está vivendo em um grupo que preenche certas
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