A Família como Espelho: um Estudo sobre a Moral dos Pobres
INTRODUÇÃO
Há novos conceitos de família com as mudanças dos papéis tradicionais, com a afirmação da individualidade, especialmente a feminina. Mas se mantém o respeito às obrigações e responsabilidades próprias dos vínculos familiares.
Mas famílias pobres a dificuldade de afirmação individual é maior, em especial para a mulher, que é mais subordinada. Aí os elos de obrigação em relação a seus familiares prevalecem sobre os projetos individuais.
A pesquisa, feita em um bairro da periferia (São Miguel Paulista) da zona norte de São Paulo parte da família para compreender com que categorias morais os pobres organizam, interpreta e dá sentido ao seu lugar no mundo. Analisa suas vidas na família e no bairro, sua concepção de trabalho, suas relações sociais com "iguais e desiguais". E a rede de parentesco num contexto de vínculos conjugais tênues.
A pesquisa focalizou a moralidade, as normas e valores na família, no bairro e vizinhança. Para a autora, a definição de família como via de acesso ao problema da moralidade foi delineada à medida que se revelava sua importância como referência simbólica para os pobres dentro e fora de casa. A família espelha e reflete a imagem com a qual os pobres ordenam e dão sentido ao mundo social.
A autora era considerada pelas pessoas pesquisadas como "diferente", mas não teve grandes dificuldades em se aproximar e conviver com os pobres; que são pródigos em conversa. Uma dificuldade era a desconfiança, pois os favelados vivem em constante ameaça, inclusive de despejo. Outra, os pedidos de ajuda, de interferência. Há expectativas de que o pesquisador passa mediar benefícios para a vida dessas pessoas, por ter melhor condição social e é natural, quase uma obrigação querer "aproveitar". Mas há a postura inversa, de afirmação de sua dignidade, autonomia e orgulho.
As entrevistas constituem oportunidades singulares para as pessoas pesquisadas, porque elas podem falar e principalmente ser ouvidas. Sua existência é assim reconhecida por alguém que não pertence ao seu mundo. Os pobres gostam pelo menos no início, de serem avisados da visita, para esperarem com a casa limpa e arrumada. Não se preocupam muito com privacidade, mas querem causar boa impressão.
O convívio envolve alguma tensão inicial que se dissipa com o tempo, e o pesquisador tem que saber se comunicar. Serem escolhidos para uma pesquisa é para os pobres uma diferencia que os leva a serem receptivos. À medida que os pesquisadores conhecem o pesquisador definem-se atitudes de respeito, generosidade, consideração ou indiferença e hostilidade. Os pobres valorizam a educação formal do entrevistador, mas apontam limites, defende a prática, a experiência de vida que possuem como um valor. É uma forma de autovalorização defensiva diante dos bens aos quais eles não têm acesso.
CAPÍTULO 1
O UNIVERSO DA PESQUISA
O que marca os pobres urbanos em São Paulo hoje é o retrato da ruína de promessas de felicidade que encerrava o crescimento industrial e econômico do país. Suas vidas são os resultados da industrialização e da urbanização do país e da migração, com a promessa de que dias melhores virão.
A pesquisa de que resultou este trabalho desenvolveu-se em um dos muitos bairros que se expandiriam como conseqüência deste intenso processo de deslocamento da população trabalhadora do país.
Como a maior parte dos pobres que vivem hoje em São Paulo, a população adulta do bairro é, em sua maioria, migrante, sobretudo nordestina.
O bairro começou a se expandir efetivamente a partir dos anos 70. No começo dos anos 80, a maior parte das mulheres era migrante e tinha seus filhos
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