A DESCONSTRUÇÃO DO SER PELA TELEVISÃO
REFLEXÕES SOBRE A TELEVISÃO BRASILEIRA
Manaus, janeiro de 2001
Texto 1:
A DESCONSTRUÇÃO DO SER PELA TELEVISÃO
A linguagem da mídia sempre foi usada como instrumento das classes dominantes, voltada para a alienação das massas. Desde a sua invenção (o primeiro livro impresso por Guttemberg foi a Bíblia), tem sido usada para a manutenção do status quo. Na atualidade, sem dúvida nenhuma, a televisão é a principal ferramenta usada neste sentido. Para que possamos compreender melhor esse poder massificador da TV, temos que conhecer alguns mecanismos utilizados por seus controladores.
Começaremos nossa análise a partir do conteúdo, forma e horário dos programas exibidos. Cada um deles é exatamente preparado de forma a vender o produto mais "desejável" para a classe e faixa etária que tem maiores possibilidades de estar assistindo o tal programa. De manhã, por exemplo, temos a programação voltada para o público infantil, e não é preciso ir muito longe para notar que todos os desenhos animados que fazem sucesso aparecem quase que instantaneamente nas prateleiras das lojas de brinquedos. As crianças são mais fáceis de manipular, pois ainda não possuem a personalidade formada e acabam introjetando as informações transmitidas, associando-as à própria narrativa mostrada. Assim, aquilo que aparece como bom nos desenhos, será bom na vida real, e vice-versa. O formato desses programas é sempre o mesmo: a apresentadora, que é o principal canal de transmissão dos conceitos emitidos, as brincadeiras (menino x menina) e todo o preconceito subliminado nas "atividades" do programa. Desta forma, o produto é vendido como solução aos conflitos internos infantis, às necessidades de amor, proteção e prazer que a criança sofre justamente por ser uma personalidade em formação. O horário da tarde, mais voltado às donas-de-casa e o público adolescente, funciona da mesma maneira, estabelecendo relações de desejo entre aquilo que querem vender e aquilo de que as pessoas têm mais necessidade. O merchandising parece ser o ponto máximo desta relação, mostrando os personagens em situação agradável, felizes e consumindo o produto, passando assim a imagem de felicidade e satisfação associada àquele produto.
Analisemos agora outra característica da TV: a anulação do senso de realidade do indivíduo. Sabemos que o nosso "mundo real" existe a partir daquilo que percebemos, ou seja, da nossa cognição. Desta forma, recebemos e codificamos as informações, aprendendo a lidar com as situações ao nosso redor. Dentro deste nosso sistema de compreensão do mundo, os conceitos de espaço e tempo são essenciais, pois estabelecem a nossa realidade tal como ela é. Nestes dois conceitos é que a televisão age para deslocar o indivíduo da sua realidade. Em seu próprio formato, a TV já começa com vantagem sobre os outros métodos de aprendizagem, pois trabalha estimulando os dois sentidos mais desenvolvidos do homem: a visão e a audição. Recebemos dela ao mesmo tempo informações visuais e auditivas complementares, selecionando aquilo que nos interessa, de acordo com a nossa realidade psíquica. A televisão age deturpando a noção de espaço e tempo, estabelecendo o estado de alienação do ser.
O mundo real visto pela televisão (noticiários, jornais, documentários) é limitado. Não existe o espaço real. Tudo cabe dentro da tela. As distâncias são eliminadas, e com isso o conceito de espaço dentro do acontecimento também é eliminado. Também é possível notar que não há continuidade. Cada notícia é mostrada como se fosse um fato isolado, sem um elemento causador e sem conseqüências. Desta forma, o espectador deixa de fixar o mundo real dentro de sua existência, absorve as notícias como se fossem atrações de circo, com um interesse efêmero, como se aquilo não fosse atingi-lo. Assim, ao vermos uma enchente em Bangladesh ou um acidente
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