UMA SEPARAÇÃO EDÍPICA
Este texto propõe, a partir de sessões clínicas de um caso de histeria, atendido na Clínica Especializada em Serviços de Psicologia Aplicada CESPA, compreender e relacionar uma separação conjugal com uma questão edípica.
Maria, 31 anos, desquitada, contadora, chega à clínica com uma queixa inicial de depressão profunda, afirmando já ter tido, por diversas vezes, a vontade de suicidar-se. Diz que seu casamento, após o nascimento do filho( o menino tem 8 anos de idade), se transformou numa tragédia. Seu marido tornou-se um homem agressivo, incompreensivo e muito desconfiado: "tenho que cuidar sozinha do meu filho, porque não posso contar com ele para nada. Ele chega em casa de madrugada, me agride e me força a fazer sexo contra a minha vontade. Eu quero e preciso muito me separar urgentemente deste homem!". Em todas as sessões seguintes, este aspecto foi sempre uma constante no relato de Maria.
Se buscarmos uma sustentação teórica, poderemos remeter esta separação à questão edípica em torno do pai. Maria mantém uma laço forte com o marido(pai edípico), mas quer se libertar. Isto se torna uma obsessão. Separando-se dele, corta os laços com este pai edípico. E mais: ela própria afirma, inclusive, que seu casamento saiu tal qual o de seus pais, ou seja, sempre marcado por infidelidades por parte do marido, brigas, etc.
Neste sentido, talvez, Maria tenha sustentado este papel, papel de gozo do pai, para continuar satisfazendo este desejo(desejo do pai). A propósito, Michel Silvestre, em seu texto O Pai, Sua Função na Psicanálise, diz: "a presença do pai indica apenas que, na histérica, o que conta é o desejo do pai mais precisamente, para ela não há desejo a não ser o do pai..." "o neurótico constrói seu fantasma sobre essa não resposta radical, produzindo uma figura do pai propícia ao seu desejo." (Silvestre, 1985: 92 e 94)
A demanda de análise de Maria passa, então, por este viés. E isto, inclusive, me remete a uma passagem do mesmo texto de Michel Silvestre, no qual ele diz: "...segundo uma das últimas indicações que Freud nos deixou, o analista se apresentaria ao analisante como substituto do pai para negociar a saída do tratamento, oferecendo junto com a cura a sua contrapartida a separação..." (Silvestre, 1985: 109). Desta feita, podemos concluir que, para Freud, a solução para este caso passa pela questão de substituir, na análise, o analista pelo pai da cliente. Trabalhando-se este ponto, Maria conseguirá libertar-se do marido.
Bibliografia:
LAPLANCHE & PONTALIS. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 1994.
SILVESTRE, Michel. O pai, sua função na Psicanálise. In: Amanhã, a Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
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