A EPIGÊNESE DO DESENVOLVIMENTO
CONFIANÇA VERSUS DESCONFIANÇA
No primeiro estágio caracterizado por Erickson, as interações que a criança estabelece como o meio são da maior importância para a personalidade em desenvolvimento. Tudo o que for acontecendo nas próximas etapas terá como fundamento as aquisições aqui ocorridas. Neste estágio, a figura da mãe constitui elemento fundamental. A satisfação de todos os desejos e necessidades, e o afastamento das situações dolorosas ou frustradoras dependem exclusivamente dessa figura.
Entende-se por mãe aquela pessoa que se ocupa mais direta e permanentemente dos cuidados do bebê, e não apenas a mãe biológica. Nesta etapa, a sobrevivência do bebê, tanto no sentido biológico como emocional, está na dependência direta das atenções e dos cuidados que recebe. À medida que se desenvolve e vai permanecendo cada vez mais tempo acordado, o bebê vai se dando conta de que suas necessidades vão sendo satisfeitas dentro de um tempo suportável. Isso vai lhe servindo de garantia e de segurança no sentido de que não está abandonado à própria sorte. Essa certeza, que Erickson chamou de "confiança social", vai ser expressa através da conduta global do bebê.
O bebê que tem confiança social, em geral, é aquele que relaxa e dorme com tranqüilidade, que se alimenta bem, em quantidades adequadas e variedade gradativamente maior, também é aquele em que as funções excretoras se realizam sem dificuldades importantes. Porém, para que a criança possa confiar na mãe e, por decorrência, venha a confiar em si mesma e nos outro, não significa necessariamente que ela deva ser alvo de satisfações absolutas e permanentes, ou seja, que em hipótese alguma ela venha sofrer frustrações. Ao contrário, ao longo do seu desenvolvimento, é preciso que o bebê vá aos poucos convivendo com algumas frustrações e limites suportáveis, de acordo com o seu momento evolutivo.
Mas o que é suportável pela criança pequena? E como podem os pais manejar com essas questões? De acordo com Erikson, são muitas poucas as frustrações que uma criança não possa tolerar. E tudo depende basicamente de como os pais percebem e propõem limites à criança. As palavras de Erikson são pertinentes e esclarecedoras: "Os pais não se devem limitar a métodos fixos de orientar por meio da proibição e da permissão, devem também ser capazes de afirmar à criança uma convicção profunda, quase somática, de que tudo o que fazem tem um significado. Enfim, as crianças não ficam neuróticas por causa das frustrações, mas de falta ou de perda de significado social nessas frustrações". Dessa forma, é possível assegurar que as primeiras experiências infantis estão diretas com qualidade das interações entre mãe e bebê. A mãe é a provedora: é quem o alimenta e faz a sua higiene; é quem acomoda para os momentos de sono; é quem lhe sustenta o corpo ao colo, moldando-o as seu; enfim, é quem sintoniza com as necessidades e os desejos do bebê e pela primeira vez o reconhece como uma individualidade. E então, por todas as experiências em que precisou e foi atendido, o bebê vai estruturando um sentimento de esperança que lhe possibilitará suportar certas dificuldades, pois na maioria das vezes seus desejos e esperanças foram satisfeitos. Aos poucos, vai se dando conta de que é possível querer, esperar, lutar, enfim, desejar, porque existe a possibilidade potencial de realizar o esperado. Por outro lado, experiências iniciais de vida excessivamente frustrantes e desalentadoras, que levam a criança a desacreditar nas atenções e nos cuidados que os adultos lhes dispensam, com muita probabilidade levarão a um sentimento de desconfiança estrutural nos outros e em si mesma, pois, se não reconhecida em suas necessidades, é como se estivessem só, abandonada, ou mesmo como fosse incapaz de despertar nos outros tais cuidados. E as conseqüências desse sentimento podem ser
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