GÊNERO HISTORICAMENTE CONSTRUÍDO NA FORMAÇÃO PARA O MAGISTÉRIO INFANTIL: PARA ALÉM DA VISÃO DE SACERDÓCIO
Resumo
Este trabalho analisa a estreita relação do universo feminino com o magistério infantil, numa perspectiva histórica, na qual são consideradas as condições de repressão, submissão, discriminação e desigualdades de gênero as quais as mulheres foram submetidas, sua participação nos movimentos feministas e o embaraço entre os papéis de mãe, professora, mulher e cidadã, a fim de contribuir para a transformação de uma realidade historicamente construída no campo das relações de gênero e educação.
GÊNERO HISTORICAMENTE CONSTRUÍDO NA FORMAÇÃO PARA O MAGISTÉRIO INFANTIL:
PARA ALÉM DA VISÃO DE SACERDÓCIO
A estreita relação do universo feminino com o magistério infantil não deve ser encarada como um fato natural, mas analisada numa perspectiva histórica, na qual as condições de repressão, submissão, discriminação e desigualdades de gênero às quais as mulheres foram submetidas, sua participação nos movimentos feministas e o embaraço entre os papéis de mulher, mãe, professora e cidadã precisam ser considerados.
A educação brasileira originou-se da ação pedagógico-evangelizadora dos Jesuítas no século XVI e perdurou por aproximadamente duzentos anos. Estes educadores possuíam uma forte organização, poder e autonomia no seu trabalho, sem nenhuma supervisão, o que representou uma ameaça ao Estado e possivelmente desencadeou o afastamento desses sujeitos da atividade educativa. A atuação docente nos Colégios Jesuítas era permitida apenas aos homens, pois somente eles estavam capacitados para tal função. As atividades escolares do século XVI eram realizadas por membros do clero em igrejas, catedrais e conventos, cujo objetivo principal era a leitura dos textos religiosos.
A abertura das escolas elementares para as camadas populares exigiu maior mão de obra para atender a demanda. Assim surgem os colaboradores leigos, que ao assumir a função docente, deveriam fazer uma profissão de fé (termo este que deu origem a palavra professor). Era uma espécie de juramento de fidelidade aos princípios da Igreja, no qual o professor era o sujeito "que professa fé e fidelidade aos princípios da instituição e se doa sacerdotalmente aos alunos, com parca remuneração aqui, mas farta na eternidade" (Kreutz in Hypólito, 1997, p. 19). Isso torna evidente o posicionamento da Igreja quanto à "vocação-sacerdócio por essência" da atuação docente, visão esta que se opõe ao cunho político democrático baseado no profissionalismo e laicidade da educação.
O processo de feminização do magistério foi simultâneo à formalização do sistema educacional. No início do século XIX, após a primeira Constituição em 1824, surgem as primeiras tentativas de sistematização da educação e também cogita-se a possibilidade da mulher atuar nessa área (Louro, 1989). A inserção feminina no magistério foi concomitante ao desenvolvimento da industrialização e urbanização próprias da formação social e econômica capitalista, considerando evidentemente as características culturais da constituição histórica da mulher no Brasil (Hypólito, 1997).
Em meados do século XIX, o país sofre algumas transformações sócio-econômicas, devido à industrialização e crescente urbanização. Surgem portanto, novas oportunidades de trabalho, especialmente para os homens, mas a mulher inseriu-se no mercado de forma limitada e hierarquicamente inferior a eles. A organizaçõe de trabalho e condições de produção capitalista reforçaram os estereótipos, tornando mais evidente a divisão sócio-sexual do trabalho.
"O século XIX acentua a racionalidade harmoniosa dessa divisão sexual. Cada sexo tem sua função, seus papéis, suas tarefas, seus espaços, seu lugar quase pré-determinado, até em seus detalhes (...). Aos homens, a madeira. À mulher, a família e os tecidos". (Perrot, 1988, p. 178)
A introdução das mulheres nas fábricas era considerada provisória, caso contrário se estabeleceria uma inversão da ordem familiar, na qual o homem era responsável pela produção e a mulher pela reprodução (Louro, 1989). A "questão de gênero beneficia tanto
Ferramenta