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A Carta de Caminha

Trabalho por Márcio Roberto Abreu Silva, estudante de Letras @ , Em 09/10/2006

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A Carta de Caminha


Certidão de nascimento ou de batismo? Não importa o rótulo que atribuirmos à carta escrita por Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel I , o venturoso, de Portugal, importa sim dizer que ela é um maravilhoso texto, uma narrativa impressionista carregada de eufemismos pelo escrivão oficial da coroa portuguesa.

Escrita diretamente do cenário dos acontecimentos, o escrivão precisou de dez dias para redigir a missiva. A carta que o imortalizou foi um de seus últimos atos : quando a feitoria lusitana em Calicute foi atacada, entre os mortos em combate estava o profético cronista do nascimento do Brasil.Vejamos um pouco sobre a carta:um texto informativo, Caminha escreveu tendo em mente um único leitor (D.Manuel), para quem a carta seria remetida, daí a quantidade de informações ,e descrições pormenorizadas que ele fez , que são tão boas, que o leitor tranquilamente quase vê uma foto dos descritos.

Paisagem física, fauna, flora e, sobretudo os habitantes da terra e seu modus vivende , são o conteúdo glorioso da carta. As imagens da carta de Caminha são inúmeras e fazem parte destas o imaginário quinhentista europeu sobre o paraíso terrestre, ou seja, o "Éden" perdido que os portugueses como todo europeu da época, que existia em alguma parte do mundo e que além de ser a fonte da eternidade, seria também a fonte inesgotável de riquezas inimagináveis.

A visão paradisíaca em relação à nova terra revela-se nas muitas citações que lhe enaltecem as qualidades (como sendo boa, de bons ares, abundante em águas , com árvores exuberantes e animais de beleza rara, além de ser habitada por gentis homens). Estas qualidades expressam o que o homem quinhentista, representado por Caminha, supunha de um eldorado, de um éden perdido, que fazia parte do imaginário da época. "Mas a terra em si, é de muitos bons ares, frios e temperados como os de Entre-Doiro e Ninho, porque neste tempo de agora achávamos , como os de lá. Águas são muitas, infindas. E em tal maneira é graciosa, em querendo a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem." (Caminha, Pero Vaz)

Qual seria o imaginário do nativo? Certamente muito diverso do europeu, muito menos sofisticado. Outros exemplos são as expressões de surpresa, deslumbramento , euforismo que a carta revela sobre os habitantes. As interpretações são carregadas dos valores socioculturais éticos e estéticos dos europeus quando se refere aos seus corpos perfeitos, limpos "suas vergonhas tão altas e cerradinhas", exaltação das formas expostas "sem vergonha", num contraste radical com a cultura proibitiva em que o escritor se inseria.

"A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura. Não fazem caso de cobrir ou mostrar suas vergonhas. O fazem com tanta inocência como mostram o rosto" (ibidem).

Mais:

"Uma daquelas moças era toda tingida, de fundo acima, daquela tintura a qual é certo era tão bem feita e tão redonda a sua vergonha , que ela não tinha, tão graciosa que muitas mulheres de nossa terra vendo-lhes tais feições fizera vergonha por não sua como ela". (ibidem)

Considerações ainda sobre o caráter dos nativos, como sendo inocentes, sugerindo a inocência original de Adão e Eva, explicitada na nudez natural, no compor-tamento pacífico, na ausência de defeitos, nos remete ao texto bíblico sobre a criação do homem, e explicitam também possibilidades de desfrute de prazeres ainda por serem usufruídos.

"...a que deram um pano com que se cobrissem e puseram-lho ao redor de si. Mas sentar não fazia memória de o muito entender para se cobrir. Assim Senhor, que a inocência desta gente e tal