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A Criação Ortonímica de Fernando Pessoa

Trabalho por Aline, estudante de Letras @ , Em 22/04/2003

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A CRIAÇÃO ORTONÍMICA de Fernando Pessoa


Por ter partido com a idade de 8 anos para a África do Sul, acompanhando a mãe e o padrasto, cônsul em Durban, Fernando Pessoa recebeu uma educação semelhante à britânica, primeiro numa escola católica irlandesa e depois numa high-school, onde os prêmios recebidos revelam uma integração lingüística acima do normal. Essa educação prolongou-se na leitura de poetas e outros autores ingleses (Milton, Byron, Shelley, Keats, Tennyson) ou de língua inglesa (Edgar Poe e mais tarde Whitman), e nas suas primeiras tentativas literárias, em verso e prosa. De regresso definitivo a Portugal, em 1906, aos dezoito anos, Pessoa não abandonará nunca até a morte o inglês, em que se exprime de preferência nos seus textos críticos e notas íntimas, e em que publicará as suas primeiras e únicas coletâneas de poemas, à exceção de Mensagem ( as brochuras Antinous e 35 Sonnets, em 1918, e os três volumes de English Poems, em 1921), consagrando-se também à tradução de poetas como Poe, Elisabeth B. Browning e Máster Therion (aliás Aleister Crowley, mágico inglês com quem manteve contatos estreitos).

Nos 35 Sonnets Pessoa toma como modelo – à imagem de Ricardo Reis em relação a Horácio e à poesia latina – a poesia inglesa da época isabelina, e em primeiro lugar Shakespeare. Ele confessa a Armando Côrtes-Rodrigues que "achou nos Sonetos de Shakespeare uma complexidade que quis reproduzir numa adaptação moderna sem perda de originalidade e imposição de individualidade aos sonetos". E acrescenta, significativamente, que "passados tempos realizou-os", o que deixa supor que se trataria afinal dos seus próprios sonetos.

Reconhecem-se facilmente, a uma leitura dos 35 Sonnets, os ecos dos germes temáticos dos heterônimos, da mesma forma que estes repercutem muitos dos leitmotive dos poemas ingleses. E, antes de mais, a problemática da identidade e da alteridade, ligada à do fingimento poético:

Whether we write or speak or do but look

We are ever unapparent. What we are

Cannot be transfused into word or book.

Our soul from us is infinitely far. 

A identidade não nos é acessível, mesmo ficticiamente, a nós próprios ou aos outros, senão como sonho, sonho de sonhos:

We are our dreams of ourselves souls by gleams

And each to each other dreams of other dreams.

Ou como mascara, máscara de máscaras:

The true mask feels no inside to the mask

But looks out of the mask by co-masked eyes.

……………………………………

And, when a thought would unmask our soul’s masking:

Itself goes not unmasked to the unmasking.

Se a linguagem é, precisamente, a revelação de uma impossibilidade de comunicação, de um inefável a que todo o poema parece condenado, nem por isso o poeta deixa de se agarrar às palavras como seu único recurso:

Thy words are torture to me, that scarce grieve thee –

That entire death shall null my entire thought;

And I fell torture, not that I believe thee,

But that I cannot disbelieve thee not. 

Quanto à realidade, ela não é mais do que aparência – e aparência enganadora enquanto tal – como na concepção platônica do conhecimento de que os sonetos estão impregnados:

Appearence even as appereance lies

De tal modo que só o não-ser dos entes é para o poeta real:

Only what in this is not this is real

O neoplatonismo liga-se às incidências esotéricas da obra de Pessoa. E ao esoterismo se reportam dois