A CRIAÇÃO HETERONÍMICA de Fernando Pessoa
Palavra de origem grega, heterônimos indica "outros nomes", mas, no campo literário, designa outras personalidades, arquitetadas e/ou descobertas pelo poeta dentro do seu "eu", ou seja, várias personagens distintas entre si e do próprio criador.
É importante não confundir pseudônimo com heterônimo. O pseudônimo é um nome falso, sob o qual alguém se oculta por uma circunstância qualquer.
Pseudônimos, "noms de plume", anonimato e toda forma de máscara retórica são tão velhos quanto a literatura. Os motivos são muitos. Eles se estendem desde a escrita política clandestina à pornografia, desde o ofuscamento brincalhão a sérios distúrbios de personalidade. O "companheiro secreto" (íntimo de Conrad), o "duplo" prestativo ou ameaçador, é um motivo recorrente veja-se Dostoiévski, Robert Louis Stevenson e Borges. Assim também é o tema antigo como a rapsódia homérica da poesia "tomada sob ditado", sob o assalto literal e imediato das Musas, ou seja, das vozes divinas ou dos finados.
Nesse sentido de "inspiração", de "ser escrito em vez de escrever", as técnicas de escrita automática antecedem em muito o surrealismo. Muitos dos grandes escritores voltaram-se abertamente contra si próprios, contra sua obra ou seus estilos anteriores, a ponto de buscar sua destruição. A multiplicidade, o ego convertido em legião, pode ser festiva, como em Whitman, ou sombriamente auto-irônica, como em Kierkegaard.
Há disfarces e paródias que a erudição mais minuciosa jamais penetrou. Simenon era incapaz de recordar quantos romances criara ou sob quais antigos e múltiplos pseudônimos. Em idade avançada, o pintor De Chirico prorrompia em museus e galerias de arte declarando falsos os prestigiosos quadros que há muito lhe eram atribuídos. Agiu assim porque passou a antipatizá-los ou porque não podia mais identificar sua própria mão? Como proclamou Rimbaud, em sua renovação da modernidade, "Eu é um outro".
Entretanto o caso de Pessoa permanece sui generis. Sua criação heteronímica constitui um autêntico programa estético, pois foi uma invenção nova na lírica européia.
Fernando Pessoa viveu durante os primórdios do Modernismo, uma época em que a arte se fragmentava em várias tendências simultâneas, as chamadas Vanguardas: Futurismo, Cubismo, Expressionismo, Dadaísmo, Surrealismo e muitas outras.
A arte, no momento da explosão das inúmeras vanguardas modernistas por todo o mundo, também se dividia e se multiplicava. Fernando Pessoa, introdutor das vanguardas modernistas em Portugal, ao se dividir, levou a fragmentação da arte moderna às últimas conseqüências.
"Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidades eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora."
(Álvaro de Campos)
Desde de cedo, Fernando Pessoa inventara seus companheiros. Aos 6 anos, trocava cartas com um correspondente fictício, Chevalier de Pás, e outra figura, cujo nome Fernando Pessoa não mais lembraria, que era como um rival de Chevalier. Ainda em Durban, África do Sul, imagina Charles Robert Anon e H. M. F. Lecher. Cria também o especialista em palavras cruzadas Alexander Search, invenção para quem Pessoa construiu uma biografia, traçou o horóscopo e em cujo nome calmamente translúcido escreveu poesia e prosa em língua inglesa. Seguir-se-iam outros 72 personagens em busca de um autor. De início, eles tendiam a escrever na esteira de Shelley e Keats, de Carlyle, Tennyson e Browning. Em 1905, o jovem empresário de "eus" retornou a Lisboa.
Até 1909 a poesia imputada a Alexander Search permanece em inglês, à exceção de seis sonetos portugueses. O ano
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