Mangueira e Império:
A Carnavalização do poder pelas escolas de Samba
O texto de Myrian Sepúlveda pode ser dividido em duas parte: em uma, ela nos conta um pouco da história do carnaval, dando ênfase à dicotomia entre a tradição e a modernidade nas escolas de samba do Rio de Janeiro e as mudanças que ocorreram durante sua história. A segunda parte do texto se refere a relação de samba e poder público.
O texto nos coloca uma questão: o carnaval teria perdido seu "valor", no que diz respeito a raiz, a tradição e a legitimidade, se tornando apenas um produto mercantil voltado ao "consumo externo"? Creio na resposta dada por "tio" Jair: "Hoje é diferente" .
O problema na Mangueira se tornou mais grave por envolver na discussão sobre tradicional e moderno dois símbolos daquela escola e do próprio carnaval carioca: dona Zica e dona Neuma. Enquanto dona Neuma defendia a "manutenção das tradições contra as 'modernidades' implantadas pelo novo diretor" , dona Zica encarava com relativa tranqüilidade a modernidade "porque tudo é processo, né?" . Dá para julgar quem está certo e quem está errado?
A autora nos apresenta o caso do Império Serrano para mostrar que as "mudanças" no samba acontecem há muito mais tempo. A fundação da Império Serrano aconteceu a partir de um racha com sua origens e tradições da Escola de Samba Prazer da Serrinha. Ao ser fundada, inovou "no samba-enredo e na divisão de alas, bem marcadas, seja por certas obrigações impostas a seus participantes - pela primeira vez, por exemplo, todos tiveram que se fantasiar - e pelo rompimento com parte da comunidade da Serrinha" .
Provavelmente, as disputas e embates atuais das escolas de samba - com o patrocínio das escolas pela contravenção e o funk, no caso da Mangueira - não se assemelham nem de longe aos problemas que resultaram na fundação da Império Serrano mas o mesmo olhar interpretativo lançado a esse fato pode se aproximar do atual.
Outra questão extremamente interesante do texto de Myrian Sepúlveda é a relação das escolas de samba com o poder público.
O primeiro fato citado ilustra muito bem essa proximidade. Quando, em 1946, um desfile une um jornal do Partido Comunista (Tribuna Popular) e a entidade representativa das escolas de samba, a União Geral das Escolas de Samba, o governo se reage financiando a criação de uma nova associação de escolas de samba, a Federação Brasileira das Escolas de Samba.
Segundo a autora, "o Império surgiu apoiado por essa nova entidade, que tinha com uma de suas figuras fortes Irênio Delgado, liderança entre os trabalhadores do Cais do Porto, amigo de mestre Fuleiro [um dos fundadores da Império Serrano] , mas também amigo pessoal do prefeito do Distrito Federal, homem ligado ao presidente Dutra" . Coincidência ou não, nos quatro anos que se seguiram, a Império Serrano se sagrou campeã.
Outro fato que mostra bem essa relação entre o samba e o poder é a aproximação do samba com o governo Vargas, através de Pedro Ernesto. Este, nomeado prefeito do Rio de Janeiro, regulamentou e oficializou o espaço dos sambistas às custas de compromissos com o governo.
Para mim, o texto de Myrian Sepúlveda se mostrou extremamente interessante porque não se concentrou apenas na história da cultura popular que envolve o samba e o carnaval. Ela nos trouxe um pouco de uma história que, creio eu, não é muito debatida: as divergências internas das escolas de samba - seja hoje ou no passado - e a sua relação com os poderes, neste caso, principalmente o público. O texto me frustou um pouco porque eu esperava que a questão da contravenção dentro das escolas, dando suporte para os desfiles, fosse mais explorada. Mesmo assim, foi um texto que valeu muito a
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