A ANTIGÜIDADE CLÁSSICA E A HERANÇA CRISTÃ
I. INTRODUÇÃO
A Bíblia é o maior best-seller de todos os tempos. A cada ano são vendidos ou distribuídos mais de 50 milhões de cópias em todo o mundo, traduzidas oficialmente para mais de 2.000 idiomas. Só no Brasil são 7 milhões de livros vendidos anualmente. Mesmo que se deixe de lado a fé, os livros sagrados são dignos de atenção, porque contêm inegáveis qualidades literárias e lições de grande sabedoria. "A Bíblia passa ensinamentos, propicia reflexões, é o grande código do pensamento e a matriz da literatura ocidental", diz o professor de história Hilário Franco Júnior, da Universidade de São Paulo, USP. Reais ou não, as histórias bíblicas são permeadas por regulamentos morais que moldaram de forma definitiva a civilização ocidental. Boa parte deles é de leis do senso comum, sem as quais a espécie humana não conseguiria sobreviver. É o caso dos Dez Mandamentos, em que se diz que é proibido matar e roubar. Ou, ainda, no caso do Novo Testamento, de ensinamentos que pregam a paz e a solidariedade humana, como na frase de Cristo: "Amarás ao próximo como a ti mesmo".
O cristianismo marcou de forma indelével os últimos dois mil anos da história humana. Foi a ideologia que moldou a sociedade feudal européia. Das interpretações divergentes dos seus textos sagrados, entre outros fatores, surgiram diversas novas doutrinas na Idade Moderna, partindo a milenar unidade cristã sob a liderança da Igreja Católica. Sob o símbolo da cruz partiram nos séculos X a XIII diversas expedições européias contra os árabes para libertar Jerusalém, o Santo Sepulcro, e a mesma imagem protegia as embarcações que singravam os mares, na expansão marítima do século XV. Sangrentas guerras foram feitas em nome do Cristo. As culturas americanas foram dizimadas pela catequese jesuítica. O mundo ocidental foi montado sob a égide cristã.
O número de cristãos - católicos e protestantes alcançam a marca dos 23% da população. No entanto, as idéias cristãs vão muito além do próprio cristianismo. Uma revelação estatística pairou sobre os preparativos para as comemorações dos 2.000 anos do cristianismo. A hegemonia da Igreja Católica Romana começou o novo milênio mais abalada do que nunca. A maior religião do mundo passou a ser o islamismo. O número de muçulmanos superou o de católicos romanos. O islã congrega 1,14 bilhão de fiéis. São 100 milhões de pessoas a mais que o rebanho do papa João Paulo II. Se lembrarmos que Maomé, fundador do Islamismo, sofreu forte influência cristã e judaica na formação dos novos preceitos religiosos, então os pensamentos do homem da Nazaré atingem nada mais nada menos que 45% da população mundial.
Talvez seja este o maior legado de todo o mundo antigo. Quem poderia imaginar, na era imperial de Roma, quando os cristãos perseguidos morriam nos circos queimados vivos ou devorados por leões, que metade do planeta e os mais ricos e poderosos países do mundo cultuariam a Boa Nova? Talvez Nero esteja se revirando no túmulo. E mais impressionante ainda é observar que as idéias e a própria vida do Cristo não são exatamente uma novidade no primeiro século. Muito antes alguém já tinha tido uma experiência deveras semelhante em variados aspectos, pelas plagas da Ática. A filosofia socrática, difundida e adaptada por Platão, contém concepções familiares a tradição cristã. Isto insere o mundo grego como um tijolo importante na construção histórica da mentalidade evangélica, além , claro, do Novo Testamento ter sido escrito em grego. Desvendar, portanto, a história do cristianismo é, antes de mais nada, encontrar as bases no seu nascimento no mundo clássico antigo.
II. A FILOSOFIA GREGA E O CRISTIANISMO
O mundo grego contribui larga e indiretamente na
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