A Farsa da Aldeia Global
Dentre os (muitos) mitos fabricados em nossos dias, e vendidos massivamente ao cidadão, ou melhor seria dizer hoje em dia, ao consumidor, está o da "aldeia global". Verdade é que poderíamos discutir sobre muitos outros, tais como a "informação democratizada", o "desenvolvimento sustentável", etc, o que garantir-nos-ia o prazer de angariar opiniões enfurecidas dos defensores de tais idéias...mas por ora, comentemos o mundo único, que, pelo absurdo do que propõe, já nos basta como curioso, e preocupante assunto.
Não nos parece a aldeia global uma idéia, mas antes uma idealização, que tenta fazer real um mundo e um modo de viver que absolutamente ainda não existe. A grande mídia, os agentes hegemônicos e muitos equivocados "formadores de opinião" descortinam ante nossos olhos o mundo único, que vem se tornar o efeito mais belo da globalização, ao corroer as fronteiras e barreiras entre os países e os povos do globo, e assim todos, pobres e ricos, têm cada vez mais as mesmas chances de comunicar-se, informar-se, consumir, satisfazer os mesmos gostos; enfim, aglutinam-se os desejos similares, pulverizam-se os contrários...por um só mundo, definitivamente!
Dito nesta toada, que aliás é vertida a nossos ouvidos em doses cavalares pelos agentes citados, quão milagrosa é a globalização, permitindo, sob a égide capitalista, tornar reais sonhos que se perseguem há séculos!
Seria mesmo milagre, não fosse antes farsa e engodo.
Porque a "aldeia global"não existe. Consideremos primeiro a questão da "pulverização das fronteiras" para alicerçar nosso ponto de vista.
Qualquer pessoa que se disponha a acompanhar o movimento do mundo, por variados veículos de informação, com espírito crítico, dar-se-á conta em algum momento que, muito pelo contrário, fortalecem-se céleres as fronteiras e por conseguinte, os Estados (que a mídia estrondosamente declarou que se tornavam mínimos...), e verificar-se-á este processo atentando para os gastos militares que se avultam, mesmo em países "em desenvolvimento", os conflitos quase permanentes por fronteiras, o protecionismo comercial, as barreiras que se acirram nos países ricos contra os países pobres; não nos parece, com tudo isso, imbuída da menor sensatez a afirmação de que "as fronteiras se pulverizam"! É certo que este processo de, ousemos chamar assim, "despertar do Estado" (afinal, o geógrafo Milton Santos já havia chamado a atenção para o "desmaio do Estado", que ocorreu muito mais pronunciadamente, ou mesmo apenas, nos países pobres), já vem ocorrendo há tempos, destoando vigorosamente do discurso oficial que cantava a sua "dissolução"; e se tornou brutalmente acelerado depois do 11 de setembro, e o que antes se cuidava obrar discretamente, e esconder sob doces mentiras, agora se faz às escancaras. Falamos justamente do fortalecimento do Estado, tanto militar como comercialmente. Principalmente dos Estados ricos, é óbvio.
A "pulverização das fronteiras" tornou-se uma acre piada.
Mas... ora!, muitos dirão, é possível que algo disso esteja correto, mas em relação à democratização da informação, não há argumentos que a possa negar.
E não obstante, negaremos, veementemente, mais esta farsa!
A que informação temos acesso realmente? Ao escutar-se o discurso "oficial" somos levados a crer que o conhecimento está à disposição de qualquer cidadão (perdão: consumidor), maravilha que a rede mundial de computadores tornou ainda mais concreta...mas no entanto esta informação e este conhecimento é distribuído por alguns poucos agentes no mundo, que às notícias, relatos, imagens e idéias adicionam, distorcem, manipulam ou subtraem o que lhes parece conveniente. É verdade que estamos aqui falando da informação de massa, que, a despeito de miríades de veículos informativos muito mais sadios (e por isso mesmo, minúsculos), não encontra concorrente a altura de lhe obstaculizar, logo, domina e impõe às gentes uma visão de mundo fabricada conforme a vontade
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