Críton
"KPITw N"
Introdução.
Sempre dando demonstrações de que era preciso unir a vida concreta ao pensamento, Sócrates uniu o saber ao fazer, a consciência intelectual à consciência prática ou moral. Concentrou-se na problemática do homem.
Embora tenha sido confundido com os sofistas, em sua época, Sócrates travou uma polêmica profunda com estes, pois procurava um fundamento último para as interrogações humanas (o que é o bem? o que é a virtude? o que é a justiça?), enquanto os sofistas situavam as suas reflexões a partir dos dados empíricos, o sensório imediato, sem se preocupar com a investigação de uma essência da virtude, da justiça, do bem, a partir da qual a própria realidade empírica pudesse ser avaliada.
A pergunta essencial que Sócrates tentava responder era: o que é a essência do homem? Ele respondia dizendo que o homem é a sua alma, entendendo-se "alma", aqui, como a sede da razão, o nosso eu consciente, que inclui a consciência intelectual e a consciência moral, e que, portanto, distingue o ser humano de todos os outros seres da natureza.
Sua filosofia era desenvolvida mediante diálogos críticos com seus interlocutores, sendo um desses, Críton. Este fora interrogado sobre aquilo que pensava saber. O que é a justiça? Porque não deveria aceitar a sentença de morte?
No decorrer do diálogo, atacava de modo implacável as respostas de seus interlocutores. Com habilidade de raciocínio, procurava evidenciar as contradições afirmadas, os novos problemas que surgiam a cada resposta. Seu objetivo inicial era demolir, nos discípulos, o orgulho, a arrogância e a presunção do saber.
No "Críton", Platão tem como objetivo imediato fazer com que as pessoas compreendam porque Sócrates não rejeitou a morte nem usou meios legais e ilegais para evitar seu fim. Sócrates não aceitou morrer por desgosto à vida, orgulho filosófico nem covardia moral, como pensavam as pessoas. Platão mostra que Sócrates o fez por um religioso sentimento de respeito à cidade materna, às suas leis e um forte espírito de fidelidade consigo mesmo. Outra finalidade deste diálogo é brindar uma de suas últimas e mais brilhantes virtudes, virtude cívica precisamente, que é a que aspira e instiga a todos.
"Críton".
Estruturação.
A estrutura do diálogo estabelecido entre Sócrates e Críton é extremamente simples. Platão nos situa na cela em que Sócrates espera a morte, à véspera do dia marcado para sua execução (44 a-b). Depois de um breve diálogo (43 a-44 b), Críton se mostra desconcertado com a serenidade de Sócrates diante da morte (este considerava-se em idade avançada para se importar com ela) e começa a instigá-lo a fugir para se salvar. Sente-se ameaçado pelo provável julgamento das pessoas de que ele, sendo amigo de Sócrates e homem rico, não tivesse tentado impedir sua morte. Oferece todo dinheiro necessário para sua fuga e o culpa de falta de coragem para enfrentar o problema, acusando-o de estar procurando o caminho mais fácil. Argumenta ainda que, por esse caminho, ele deixaria os filhos órfãos, "abandonando-os à sua orfandade". Sócrates analisa com tranqüilidade as razões expostas por Críton (45a-46a) e, uma vez que este parece haver concluído a fala, dispõe-se a refutar pacientemente tais razões. Sócrates começa a proferir sua fé na razão (46b e seguintes), naquela razão que guiou seus passos em vida: "nunca fui homem para me deixar persuadir senão pela razão que me parecer a melhor pelo raciocínio".
Críton é convidado por Sócrates a considerar o assunto em acordo com sua razão. Depois de deixar bem firmado que a base de sua argumentação será escutar a opinião dos inteligentes e entendidos no que é justo e no que é injusto (47a-48a),
Ferramenta