Crítica de Peça
Uma ode à separação
Simples, reflexiva e universal. Assim é a peça de Domingos de Oliveira, que depois de Amores, volta a tratar de relacionamentos amorosos, focando agora a dor da separação. O diretor presenteia o Rio com uma bela comédia dramática, que disseca com muito humor e sensibilidade o fim de um grande amor.
Separações é uma daquelas peças de teatro inesquecíveis. Aquelas que deixam alguns trechos bem presentes em nossa memória, fazendo com que recorramos a eles toda vez que o assunto estiver na mesa. Uma obra-prima sobre o amor e todas as suas dores, conquistas e derrotas, enfatizando sua ambigüidade. A mesma força que tranqüiliza e mantém vivo, destrói e faz querer morrer.
Bairrista confesso, o diretor e ator Domingos de Oliveira desenvolve toda a trama no extinto bar Real Astória, no Leblon, um lugar que marcou uma geração de intelectuais e artistas nos anos 80. Palco de muitos encontros e desencontros amorosos, foi a fonte inspiradora da peça, de onde surgiram as personagens, as reflexões, as estórias.
Domingos arranca do público lágrimas e muitas gargalhadas analisando detalhadamnte todos os estágios da separação, segmentando-a em cinco momentos consecutivos e complementares: negação, negociação, revolta, aceitação e agonia.
Com o reforço de citações filosóficas a músicas bregas, o elenco dramatiza brilhantemente no palco a dor do fim de um relacionamento. O diretor, esbanjando experiência no assunto, alia o texto claro a uma cenografia ideal, com elementos simples de cenário, como uma mesa de bar, uma poltrona, um piano. O cenário, praticamente todo vermelho, lembra a cor da paixão e a dor do desespero. Neste contexto, a iluminação torna-se essencial, servindo para situar o público nos diferentes ambientes retratados na história. Com esses recursos, não particulariza um amor, uma dor específica, mas universaliza o sentimento e o comportamento humano, mostrando que qualquer um já passou ou certamente passará por aquilo.
Esta fórmula é o que integra o público, que vive toda a angústia de Cabral (Domingos de Oliveira) ao perder o amor de Glorinha (Priscila Rozenbaum). O público resgata na sua memória as suas próprias decepções e sofrimentos e vive na pele cada etapa do padecer de Cabral. Como se não bastasse a condição universal do amor, o ator e diretor cria uma atmosfera que serve como elemento de identificação, capaz de transportar o público ao palco quando este se reconhece em algum ou na maioria das personagens.
Este êxito também é mérito da organização espacial do teatro, em forma de arena, facilitando a aproximação da platéia. Todos entendem os sentimentos das personagens, nos seus momentos de revolta, a insensatez e amargura. Uma introspecção psicológica, tipo "machadiana", em que as virtudes e defeitos estão sendo compreendidos e nunca julgados pelo público.
Falar de amor de uma forma simples, sem cair no "lugar-comum", não é uma tarefa fácil. Separações, que terá sua versão cinematográfica no final do ano, faz isto de forma esplêndida.
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