SONHOS de Akira Kurosawa
"Eu acredito que os sonhos sejam aqueles desejos desesperados do homem, que transbordam e aparecem em sono, e contudo apresentam sentimentos tão vivos que parecem experiências reais".
O homem é um ser dotado de sentidos e que percebe o mundo tal qual lhe parece. Essa percepção é envolvida e sobrecarregada de sentimentos, pois por mais insignificante que seja o objeto ou a "experiência" vivenciada, sua percepção é automaticamente codificada através de sensações. A união de todos os sentidos forma uma estrutura única proporcionando uma percepção indivisível, ou seja, a coisa é percebida de maneira total.
Assim, ao analisar o filme "Sonhos", nota-se que a percepção é obtida essencialmente a partir da visão e da audição, meios pelos quais os recursos e técnicas cinematográficas exploram incansavelmente para projetar e provocar as mais diversas emoções.
A obra-prima "Sonhos", escrita e dirigida por Akira Kurosawa, permite não apenas nos envolver no mundo dos sonhos e do imaginário individual de Akira, mas transfomá-los conforme a percepção particular e única de cada um que interage com o filme.
Kurosawa, produz sua obra em oito episódios distintos. A duração e a temática também diferem, entretanto, não se distanciam, sendo perceptível uma unidade que integra e transforma os diversos episódios num único conjunto, única obra, enfim, num único filme.
Os efeitos visuais e auditivos são explorados de forma que imagem e som se complementam, criando o que MERLEAU-PONTY diz: "uma totalidade nova e irredutível, mediante os elementos que entram em sua composição". Essa combinação que possibilita "uma nova totalidade" conduz a uma consumação que primeiramente fora obtido por quem produziu e posteriormente por quem assiste ao filme.
Os poucos diálogos dão espaço para uma longa métrica visual e sonora (divisão entre silêncio e diálogo). As imagens e os sons são praticamente constantes e contínuos em todos os episódios. A percepção visual tem grande estímulo através do colorido intenso das imagens, intercalado a cada dois episódios, outros dois utilizando cores mais frias. Por exemplo, Sol em meio à chuva, Pomar de Pêssegos, exploram de forma bastante nítida o uso das cores, enquanto que a seqüência dos próximos sonhos, A Nevasca, O Túnel, expressam através de um colorido opaco o "uso da inteligência em prol da imaginação". Isso quer dizer que por mais realista que o cinema possa ser, "a idéia ou os fatos comuns estão presentes apenas a fim de propiciar ao criador a busca de seus signos sensíveis e, assim, traçar o monograma visível e sonoro" (MERLEAU-PONTY, 1983:115).
A unidade também pode ser percebida através da sonoplastia. Os recursos sonoros complementam a obra. É captado desde sons como a chuva caindo, respiração, passos, gemidos, ventania sendo incorporado ou mesmo intercalado por músicas que intervêm a fim de marcar uma mudança, ou seja, a música acompanha e contribui para a realização de "uma ruptura sensorial", segundo Maurice Jaubert.
"Sonhos", resume-se numa obra que não se encaixa no gosto popular, que tem como estereotipo de produções cinematográficas, filmes com cenas de efeitos especiais, violência, e um dinamismo (temporização) que se distancia dos filmes orientais. "Sonhos não é um simples filme para ser visto. É uma obra de arte para ser contemplada". Assim, define-se a totalidade desta obra.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
MERLEAU-PONTY, Maurice. O Cinema e a nova psicologia. In: XAVIER, Ismail (Org.). A Experiência do cinema. Rio de Janeiro: Edições Graal; Embrafilme, 1983.
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