CALÍGULA
Calígula de Albert Camus é um clássico da dramaturgia. Em 1999, sob a direção de Fernando Guerreiro e adaptação de Flor Araújo, o palco da Sala do Coro do Teatro Castro Alves abre suas cortinas e proporciona aos baianos mais um espetáculo de qualidade, conteúdo, técnica e bom gosto.
Vladimir Brichta, como Calígula, e grande elenco, serão os responsáveis por manter viva uma das mais antigas manifestações artísticas, o teatro. A história narra o período em que o Imperador César Caius (Calígula) governou. A proposta do diretor Fernando Guerreiro foi muito além de mostrar a loucura de um imperador e suas atrocidades. Antes, pretendeu resgatar a essência do texto deturpado pelo filme homônimo.
O Império de Calígula, talvez, tenha sido o mais conturbado de toda a história da Roma Antiga. Calígula não media conseqüências. Tendo sua irmã como amante e companheira, pretendia romper com as leis de Roma e fazê-la oficialmente sua esposa. Seu governo é caracterizado pelas atrocidades, orgias e incosequencias de uma mente doentia. Não tardaria para os primeiros inimigos aparecerem. Sua loucura não tinha limites e a obsessão por poderes plenos o leva a confabular a extinção do senado. Talvez esta tenha sido a mais insana de todas as suas atitudes, pois estaria ele assinando a sua própria sentença de morte.
Atores expostos numa arena, palco desnudo, nada de truques: apenas teatro. Assim define a peça, o diretor Fernando Guerreiro. Talvez o sucesso do espetáculo tenha sua origem nessa simplicidade de cenário do qual buscou sua compensação na qualidade interpretativa dos atores.
Nada que identificasse um império ou mesmo características da cultura romana. O cenário limitava-se a uma cadeira semelhante às utilizadas por dentistas, um fundo branco (provavelmente madeira) com uma abertura central por onde entravam e saíam os atores, um mezanino em metal, nas laterais e fundo do palco e no chão do palco uma estrutura de metal onde escondia também em metal uma mesa e dois bancos desmontáveis. O cenário está pronto para a epopéia, trágica e louca história do Imperador Calígula.
Abre-se as cortinas, acende-se os holofotes e o feixe de luz incide sobre Calígula (Vladimir Brichta). Dá-se início a encenação, "uma luta", "uma tourada". O teatro diferentemente do cinema parece nos integrar à aquela ação. Mesmo como espectadores passivos, a sensação de estar próximo aos atores permite sentir uma interação imaginária. A peça Calígula extrapola os limites retangular do palco. De repente ouve-se uma voz de tom relativamente alto atrás de você. Os personagens, ou seja, os atores saem do pedestal (palco) que a eles é de direito e circulam próximo ao público.
No teatro, outros recursos são utilizados para prender a percepção do público. Quando praticamente não há cenário, a atuação, os diálogos, a entonação da voz, o gestual preenchem o espaço ou buraco deixado pela inexistência do cenário. A iluminação também terá importância preponderante. O foco de luz determina e induz o espectador a direcionar sua visão. A penumbra permite a movimentação dos atores sem que sejam percebidos e ausência de luz indica o encerramento de um ato para outro sem que seja necessário o uso das cortinas.
Em Calígula, o uso da iluminação conduz o desdobramento e o desenvolvimento das ações. A sonoplastia, como as projeções de barulhos e as melodias, assim como no cinema consuma numa totalidade entre a ação interpretativa e o som. Os momentos mais trágicos e decisivos da peça foram marcados por ritmos, barulhos incisivamente mais rápidos e constantes.
O figurino, assim como o cenário, também não ilustrava a sociedade romana. Mas categoricamente serviu como instrumento distintivo para reconhecer os soldados, os senadores e o imperador. Apenas o protagonista (Calígula) usou mais de um figurino, chegando
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