COCANHA
Para analisar A Cocanha como um texto que identifica o imaginário da Idade Média, partiremos dos elementos que constróem essa fabliau, tratando-a como uma representação da sociedade da época que ela utopiza. A Cocanha atende socialmente às necessidades humanas de aliviar tensões, também serviu para utopizar, imaginar uma situação invertida.
A Cocanha nos expõe uma mentalidade medieval, que se manifesta em contraposição à época em que se torna popular. Essa mentalidade sugere harmonia e abundância, diferente da realidade da época.
Logo no início da Cocanha, o autor nos fala que ele está escrevendo o texto com base na "grande sabedoria que Deus me deu", o que sugere a relação homem/divindade em harmonia. Na dimensão onde está situada a Cocanha homem e Deus estão em unidade e equilíbrio, pois esse lugar está "abençoado por Deus e por todos os seus santos". Deus é responsável pela abundância desse segundo o autor país, "come-se o que Deus dá", e há tanta abundância, onde sentimentos de alegria e de saciedades substituem as dores e dificuldades reais do mundo europeu. As características materiais são vistas com equilíbrio, não se paga por nada, há sacos com moedas espalhados pela Cocanha, há roupas e calçados à vontade, quanto mais se dorme, mais se ganha. A relação do homem com a natureza também é de harmonia, de comunhão, não há trabalho, só o desfrute das maravilhas oferecidas pela natureza. A natureza é exuberante.
Na Cocanha existe a Fonte da Juventude, não há homens nem mulheres velhas, a velhice é vista como uma degradação, a juventude na Cocanha é sempre reconquistada, homens e mulheres são belos, e podem gozar dos prazeres oferecidos neste lugar.
As relações homem mulher expressam total liberdade sexual, onde tanto homens quanto mulheres poderão satisfazer seus desejos quando e com quem quiserem, sem serem censurados ou reprimidos, permitindo assim que os habitantes deste país busquem sua felicidade livremente. "Cada um pega tudo o que seu coração deseja".
O tempo é festivo, repleto de comemorações: "quatro Páscoas, quatro festas de São João, quatro vindimas, feriado e domingo todo dia, quatro Todos os Santos, quatro Natais, quatro Candelárias, quatro Carnavais e Quaresma uma a cada vinte anos", e é mais longo o mês tem seis semanas. É mais longo nas alegrias, nas festas e nos prazeres, e mais curto nos períodos tristes como a Quaresma, um período de reflexão, penitência, só a cada vinte anos. O espírito do homem deste lugar é livre e despreocupado, não há preocupação com trabalho, alimentação, compromisso, idade, vestuário, religião; o que contrasta com a Idade Média, onde o cotidiano era escasso em comida e a religião restringia a liberdade dos homens.
O processo de perda deste "paraíso" é de via única, uma vez tendo acesso à ele, não se deve nunca deixá-lo, pois o retorno é impossível, e essa busca se tornará eterna. Como todo mito revela uma lição de moral, a Cocanha faz uma apologia também à realidade de quem não vive neste país, onde as pessoas devem se contentar com as coisas boas que possuem no exato momento em que lêem o texto, pois se deixá-las, poderão se arrepender, e viver a buscá-las.
Enuncia-se também um outro mundo, não com fartura, não com liberdade, mas um mundo onde se sentirá falta dos prazeres do país Cocanha. O conteúdo do mito da cocanha circula em níveis de cultura diferentes, meios culturais diferentes, e na diacronia ao longo do tempo. A linguagem do mito se alimenta no tempo e revela dados da mentalidade.
A projeção do cotidiano medieval para o mito da Cocanha expressa também a busca incessante do homem pelo Paraíso, num
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