Análise do conto: "Peregrino" e visão do autor
Universidade Estadual do Ceará – UECE / Centro de Humanidades – CH
Fortaleza, 2006
O autor Moreira Campos especializou-se no drama familiar urbano, embora tenha também cultivado o chamado conto rural, semelhante ao regionalista. Em muitas narrativas esse conflito se dá no plano amoroso: quase sempre marido ou mulher infiel. Outras vezes o embate é interior, do protagonista e a morte num curto lapso de tempo ou o tempo de uma morte são utilizados com alguma freqüência por Moreira Campos, pois a morte como tema central está presente em diversas narrativas, sem contar com a presença de velhos, moribundos ou não, é também uma constante nos contos moreirianos.
Dentro desta perspectiva, o ponto de vista onisciente é encontrado em alguns contos, para estabelecer diversos tipos de diálogos a fim de enriquecer a narração dos fatos e falas, no entanto, não trazem as tradicionais indicações dos nomes dos personagens, portanto, os diálogos ou as falas em Moreira Campos são quase sempre circunstanciais, de aparente inutilidade, são, no entanto, muito necessários à aurdidura.
Dentre seus variados contos De "O Puxador de Terço" destaca-se “Os Anões”, em que a concisão do contista é mais visível. Mais uma vez Fortaleza é o ambiente da trama. Mais uma vez a estrutura de círculo: uma frase que se repete (“Tu agüenta mesmo um homem?”), no começo, no meio e no fim, a mostrar que o drama da anã Lourdinha não findou, continua. Em “O último hóspede ou Eurico, o noivo” toda a trama se desenvolve numa pequena pensão.
Mais uma vez o embate amoroso, aqui de forma inusitada, eis que a terceira personagem, a noiva, não se apresenta, é apenas mencionada, e a quarta, o marido traído, mal aparece, como se de nada soubesse. A narração se faz lenta, noturna, sonâmbula, como se a história não tivesse fim – os mesmos gestos, os mesmos atos todos os dias, todas as noites. O drama como que se manifesta às escondidas, sem testemunhas.
Ou sem espectadores. Em razão disso, não há desfecho. Em “Os três retratos” a concisão se aguça. Em “O Banho”, como o próprio título sugere, tudo se dá num instante, num curto lapso de tempo. Um instantâneo, talvez. Também breve é “As Corujas”, outra obra-prima. Num necrotério, o vigia dos mortos em luta com as corujas, que “pousam sobre o peito dos mortos, arranhando-lhes os olhos parados”.
O tempo se alonga, numa luta desesperada do homem em defesa da integridade física dos mortos. E o círculo se fecha, sem final. “Os Estranhos Mendigos” também não apresenta desfecho, porém há nele um embate passado – assalto ao comércio pelos soldados do destacamento –, como a infra-estrutura do conflito posterior – os dois mendigos (ex-soldados) estropiados nas ruas. Esse lapso de tempo alongado se vê em muitos contos, como em “Frustração”.
Esse tipo de conto sem desfecho, iniciado em "O Puxador de Terço", se aperfeiçoou no livro Dizem que os cães vêem coisas (que não deixa de ser uma antologia pessoal). “O cachorro” é todo uma síntese. E o desenlace se dá no meio da história. Ou então o desfecho é a trama. Em “Os Doze Parafusos”, outra das mais conhecidas e belas narrativas curtas de Moreira Campos, o remate se dá um pouco antes do final, quando a personagem se suicida e em alguns contos os personagens sem nome, vêem coisas e às vezes o único personagem com nome é secundário.
Não se vê em Moreira Campos a descrição excessiva. Quando a utiliza, no entanto, o faz de maneira a preparar o terreno (o palco) para que o personagem nele se movimente. Veja-se “O Peregrino”, o começo: “Chão rude, áspero, mais de pedregulhos”. Mais adiante o narrador fala de horizontes, ramaria seca, bacuraus, folhagem do imbuzeiro. O enredo é
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