Análise de Uma Fotografia
A fotografia na imprensa brasileira surgiu no início do século. Junto a essa fotografia de reportagem incipiente apareceram as primeiras fotos de publicidade, ligadas ao crescimento do mercado interno e à estruturação do setor terciário da nossa economia. Os nossos primeiros repórteres fotográficos eram provenientes das classes populares, pessoas sem formação e com instrumental técnico inadequado à sua atividade. Durante quarenta anos essa foi a realidade da fotografia de imprensa no Brasil. A situação só se modificou a partir da reformulação da revista " Cruzeiro" na década de 1940, o que modificou definitivamente o estatuto social do fotógrafo de reportagem.
Ao primeiro time de fotógrafos dessa revista coube a tarefa de reformulação da fotografia de reportagem sob a orientação de alguns estrangeiros. O redimensionamento de "O Cruzeiro" a partir da inclusão da fotografia como elemento ativo da reportagem, a variedade dos assuntos abordados e o surgimento de uma fotopublicidade atuante foram a mola para a sua expansão.
Antecipando-se e até mesmo preparando a sociedade brasileira para o surgimento da televisão, o fotojornalismo unificou o país através das páginas da revista "O Cruzeiro". O novo fotojornalismo conseguiu grande aceitação na sociedade brasileira, construindo o real pelo exercício de visão do fotógrafo. A percepção de que o real pode ser moldado arbitrariamente ao mesmo tempo em que fundou o fotojornalismo moderno no Brasil, inebriou alguns fotógrafos que passaram a fraudar suas reportagens. A partir das fraudes e do surgimento da televisão, o declínio das revistas ilustradas e consequentemente do fotojornalismo foi inevitável.
Estabeleceu-se uma dinâmica entre a fotografia e o texto, cada um tentando deter para si o privilégio de definição dos acontecimentos. Esta disputa caracterizou o nosso moderno fotojornalismo que fez do leitor um co-participante.
A prática do fotógrafo modernista e do fotojornalismo eram totalmente conflitantes: de um lado a gratuidade da concepção da "arte pela arte" e de outro a proposta de instrumentalização da fotografia e da profissionalização do fotógrafo. Hoje, analisando esses dois movimentos, a partir de seu contexto histórico, vemos que ambos vieram a renovar estruturalmente a linguagem fotográfica, trabalharam inseridos no processo geral de modernização da sociedade brasileira.
Algumas fotografias por si só, já são completamente nítidas em seu contexto, não se tornando necessário um texto, uma "explicação", enquanto outras precisam de uma real explicação, uma espécie de legenda, para se definir o que foi proposto demonstrado ou documentado pela lente de um fotógrafo.
Dentre desse contexto, escolhi uma foto do então prefeito de São Paulo Jânio Quadros que foi feita em 1985 para a revista "Veja". Nesse momento a revista precisava enviar à gráfica a foto do vitorioso da disputa para a prefeitura de São Paulo para ser imprimida logo após o resultado da eleição, e convidou dois dos prováveis vitoriosos, Fernando Henrique Cardoso e o próprio Jânio Quadros para serem fotografados já que provavelmente um deles sairia na capa do dia seguinte da votação como candidato eleito.
O local escolhido foi o gabinete da prefeitura de São Paulo na cadeira do prefeito. Fernando Henrique aceitou, mas Jânio Quadros não.
Fotógrafos dos jornais "Folha de São Paulo" e o "Estado de São Paulo" insistiram em registrar a cena encomendada pela revista. Fernando Henrique cedeu, mas fez um pedido: que a foto não fosse publicada até a sua vitória.
A "Folha de São Paulo" desrespeitou o embargo e publicou-a antes da conclusão da contagem de votos.
Derrotado Fernando Henrique amargou assistir a Jânio Quadros desinfetar a poltrona em que se sentara.
Uma gentileza com a imprensa passou à História como gesto de arrogância.
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