MIMESE
" Arte Literária é a mimese (imitação); é a arte que imita pela palavra" - Aristóteles
A Literatura, como toda arte, é uma transfiguração do real, é a realidade recriada através do espírito do artista e retransmitida através da língua para as formas, que são os gêneros, e com os quais ela toma corpo e nova realidade. Passa, então, a viver outra vida, autônoma, independente do autor e da experiência de realidade de onde proveio. Os fatos que lhe deram às vezes origem perderam a realidade primitiva e adquiriram outra, graças à imaginação do artista. São agora fatos de outra natureza, diferentes dos fatos naturais objetivados pela ciência ou pela história ou pelo social. O artista literário cria ou recria um mundo de verdades que não são mensuráveis pelos mesmos padrões das verdades factuais. Os fatos que manipula não têm comparação com os da realidade concreta. São as verdades humanas gerais, que traduzem antes um sentimento de experiência, uma compreensão e um julgamento das coisas humanas, um sentido da vida, e que fornecem um retrato vivo e insinuante da vida, o qual sugere antes que esgota o quadro. A Literatura é, assim, a vida, parte da vida, não se admitindo que possa haver conflito entre uma e outra. Através das obras literárias, tomamos contato com a vida, nas suas verdades eternas, comuns a todos os homens e lugares, porque são as verdades da mesma condição humana. A Arte Literária consiste na realização dos preceitos estéticos da invenção, da disposição e da elocução.
O primeiro a estabelecer uma distinção entre literatura, em sentido restrito (obra estética) e literatura, em sentido amplo (qualquer obra escrita) foi Platão e depois Aristóteles. Para o último: Literatura é a imitação (mimese) da realidade. Para o filósofo grego, só é obra literária a que imita ou "recria" a realidade. Não se trata, evidentemente, apenas de reprodução servil ou simples cópia da realidade. Trata-se, antes, de imitação, de representação construída pelo autor, de apresentação da realidade segundo a maneira de ver do autor. "O poeta imita, representa uma ação conforme à realidade ou à verdade, mas uma ação construída e arranjada por ele." Essa imitação não se estende, porém, à realidade ou à natureza exterior: ela tem por objeto a vida humana, o homem, seus costumes, seus estados de alma, suas paixões, suas ações. Além disso, realidade aqui tem sentido muito amplo: não apenas aquilo que é, mas também o que normalmente ou moralmente deveria ou poderia ser.
No século XIX, volta a predominar o conceito de literatura em sentido ainda mais amplo que o dos sofistas. A literatura é entendida então como um conjunto de produção escrita de um povo, de um indivíduo. Embora seja certo que a literatura constitui antes de mais nada o resultado do diálogo entre a tradição e a vontade criativa, também é certo que sua evolução histórica foi determinada em boa medida pelos esforços de sucessivas escolas teóricas que, nas diferentes épocas, tentaram não só penetrar no mistério da criação literária como também estabelecer suas regras e objetivos, para torná-la acessível a um público relativamente amplo. Assim, por exemplo, o conceito clássico da mimese, ou imitação da realidade, postulado pelo filósofo grego Aristóteles no século IV a.C., constituiu o ponto de referência central de toda a produção literária até o romantismo, cujas idéias também se devem às contribuições de pensadores como J. G. von Herder e Wilhelm von Humboldt.
Em termos gerais, podemos dizer que a literatura se manifesta de três grandes maneiras: como re(a)presentação (mimese) estético-verbal da natureza humana; como re(a)presentação estético-verbal da sociedade e como re(a)presentação estético-verbal do indivíduo. O primeiro caso é território privativo da Tragédia, que tematiza exatamente a condição humana considerada em si mesma, complexa e falha, ainda
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