Meios de Comunicação A Radiodifusão Na Era Vargas e a Disseminação de Valores Morais, Intelectuais e Políticos
Avaliando a importância da propaganda ideológica veiculada nos anos 30, quando Getúlio Vargas implantou seu projeto de união nacional, e coube à rádio disseminar para a sociedade toda a produção de cunho político-ideológico, que sugeria e afirmava a necessidade histórica do novo governo, partimos do pressuposto que é pela linguagem que o pensamento se organiza e deixa o caos para se estabelecer no simbólico, a fim de analisar a gênese da relação rádio e disseminação de valores morais, intelectuais e políticos.
Para os ideólogos do Estado Novo, a educação, a cultura e a política deviam estar a serviço da nação, cabendo-lhe o papel de tutora da sociedade. De fato, o decreto que regulamentou o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) reservou maior espaço para a radiodifusão, e isso não foi por acaso. Três anos antes seu futuro diretor-geral, Lourival Fontes, já tratava da importância da rádio como instrumento de ação política e social: "Não podemos subestimar a obra de cultura realizada pela rádio e, principalmente, sua ação extra-escolar. Ela chega até onde não chegam escola e imprensa escrita, isto é: aos pontos mais longínquos e até à compreensão do analfabeto." Foi nessa linha de raciocínio que o governo encampou a Rádio Nacional, instalou dezenas de emissoras e criou o Programa "Hora do Brasil", que transmitia diariamente, em cadeia nacional, discursos e narração de atos do governo em torno de temas como revolução, pátria e comunismo e construía na mente do ouvinte a imagem de uma sociedade una e indivisa, que pressupunha a identificação entre o público e o privado, o Estado e o cidadão.
De acordo com Marshall McLuhan, "O conteúdo de um meio é como a bola de carne que o assaltante leva consigo para distrair o cão de guarda da mente" e, desse modo a palavra falada, eixo de toda propaganda do novo regime, permitiu de forma ampla e imediata difundir suas mensagens legitimadoras porque distraía o ouvinte com a promessa de um "futuro de grandezas", promotor de uma "nova raça brasileira" e outros conceitos previamente identificados e elaborados pelos intelectuais do DIP. Aliás, José Arbex Jr., em
"Uma outra comunicação é possível (e necessária)" explica a facilidade do regime em administrar o universo simbólico da massa e excluir os pontos conflitantes de suas mensagens, ao afirmar que "O monopólio da comunicação impede o debate plural e democrático das idéias, (...) constrói percepções e consensos segundo critérios e métodos não transparentes e não submetidos ao controle das sociedades."
Com efeito, e produzindo o que Eric Hobsbawn aponta como uma "tentativa de reversão do individualismo para o coletivismo", o Estado Novo usou a rádio como instrumento pedagógico, apostando no sentimento de união nacional e difundindo uma cultura baseada na reforma educacional que uniformizou todas as disciplinas e destacava figuras como Pedro I e Duque de Caxias como pais da existência nacional, utilizando mitos como os da "raça forte", "brava gente" e "povo destinado à grandeza" para fundamentar movimentos como a "Marcha para o Oeste", com a intenção de povoar vastas extensões de terra no Norte e Centro-Oeste. Aliás, esse culto ao mito bandeirante também pretendia reaproximar Vargas de São Paulo, estado contra o qual havia lutado na Revolução de 32 e, assim, o ideário do povo descendente das Bandeiras Paulistas passa a ser disseminado, criando uma nova identidade, negadora das diferenças e promotora da união.
É, ainda, relevante lembrar que através da rádio Vargas denunciou o suposto Plano Cohen, unicamente com a intenção de justificar o endurecimento do regime, sufocar a Intentona Comunista e colocar na ilegalidade sua principal força de oposição. Isso nos leva a questionar, como C. P. Snow
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