1984 - George Orwell
O Grande Irmão zela por ti!
GUERRA É PAZ;
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO;
IGNORÂNCIA É FORÇA.
(inscrição na fachada do Ministério da Verdade)
Fazia parte da campanha de economia, preparatória da Semana do ódio. Em cada patamar, diante da porta do elevador, o cartaz da cara enorme o fitava da parede. Era uma dessas figuras cujos olhos seguem a gente por toda parte. O GRANDE IRMÃO ZELA POR TI, dizia a legenda Winston foi até a janela: uma figura miúda, frágil, a magreza do corpo apenas realçada pelo macacão azul que era o uniforme do Partido. Só importava a Polícia do Pensamento.
Por trás de Winston a voz da teletela ainda tagarelava a respeito do ferro gusa e da superação do Nono Plano Trienal. Dominavam de tal maneira a arquitetura circunjacente que do telhado da Mansão Vitória era possível avistar os quatros ao mesmo tempo. O Ministério do Amor era realmente atemorizante. Winston voltou-se abruptamente. Por um motivo qualquer, a teletela da sala fora colocada em posição fora do comum. Em vez de ser colocada, como era normal, na parede do fundo, donde poderia dominar todo o aposento, fora posta na parede mais longa, diante da janela. Sentando-se nessa alcova, e mantendo-se junto à parede, Winston conseguia ficar fora do alcance da teletela, pelo menos no que respeitava à vista. Era um livro lindo. Exceto recados curtíssimos, o normal era ditar tudo ao falascreve, o que naturalmente era impossível no caso. De nada tinha consciência excerto da brancura do papel à sua frente, a coceira acima do tornozelo, o berreiro da música e uma leve bebedeira causada pelo gim.
O Ministério da Verdade ou Miniver, em Novilíngua era completamente diferente de qualquer outro objeto visível. Era uma enorme pirâmide de alvíssimo cimento branca, erguendo-se, terraço sobre terraço, trezentos metros sobre o solo. De onde estava Winston conseguia ler, em letras elegantes colocadas na fachada, os três lemas do Partido:
GUERRA É PAZ.
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO.
IGNORÂNCIA É FORÇA.
Era um livro sem título. Possui-la-ia e a degolaria no momento do gozo. A mulherzinha do cabelo cor de areia atirara-se sobre o espaldar da cadeira que tinha à frente. Era claro que orava.
Era em parte um hino à sapiência e majestade do Grande Irmão, porém mais que isso, era auto-hipnotismo, o afogar deliberado da consciência por meio do barulho rítmico. Na vasta maioria dos casos não havia julgamento, nem notícia da prisão. Era-se abolido, aniquilado; vaporizado era o termo corriqueiro.
Parsons, esposa de um vizinho do mesmo andar. Nas paredes viam-se bandeiras escarlates da Liga da Juventude e dos Espiões, e um cartaz tamanho natural do Grande Irmão. Parsons era colega de Winston no Ministério da Verdade. Era um homem gorducho, mas ativo, de estupidez paralisante, uma massa de entusiasmo imbecil - um desses servos dedicados e absolutamente fiéis dos quais dependia a estabilidade do Partido, mais do que da Polícia do Pensamento. - Tens uma chave inglesa? - indagou Winston, apalpando a porca do sifão.
Lavou os dedos da melhor maneira possível na água fria da pia e voltou para a sala.
Winston despediu-se da Sra. A picada do estilingue não doía mais. Winston nunca conseguira ter certeza - mesmo depois do cintilar de olhares daquela manhã ainda era impossível ter certeza - da amizade ou inimizade de O'Brién. A voz da teletela fez uma pausa. Nossas forças do Sul da índia lograram uma gloriosa vitória.
Más notícias pensaram Winston. Os princípios sagrados do Ingsoc. Novilíngua, duplepensar, a mutabilidade do
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