Chanchadas
Introdução
" Rio de Janeiro, anos 40 e 50.
Não era mais o Arraial da Penha que servia então de trampolim para o carnaval. Já havia, então, para esse fim, emissoras de rádio, em cujos estúdios e auditórios a folia de Momo corria solta com alguns meses de antecedência. Às telas de cinema ela também chegava com menos antecedência, é verdade, mas pela primeira vez os rincões mais afastados do país passaram a ter acesso à imagem dos ídolos da música popular versados em sambas e marchinhas, através de filmusicais carnavalescos.
Nada de dramas atravessando o ritmo. Na passarela cinematográfica, só a alegria comandava o espetáculo. Atraindo filas e mais filas de espectadores religiosamente fiéis ao seu humor quase sempre ingênuo, às vezes malicioso e até picante, o filmusical carnavalesco impôs-se como um entretenimento de massa de singular expressividade. ( ) em nenhum outro momento de sua trajetória o cinema brasileiro se relacionou tão bem e carinhosamente com o grande público como nos tempos em que Oscarito e Grande Otelo formavam uma dupla do barulho e os estúdios da Atlântida, apesar de suas notórias precariedades, eram mitificados como uma versão tropical da Metro. Seu humor mais ingênuo encantava as crianças, seu humor mais malicioso divertia os adultos, e seus interlúdios românticos e musicais fechavam o ciclo da sedução familiar".
É assim que Sérgio Augusto introduz seu livro "O Mundo é Um Pandeiro", no qual ele trata da época em que o cinema brasileiro foi mais assistido pelos próprios brasileiros. Época em que formavam-se filas enormes nas portas dos cinemas, cantavam-se as músicas que seriam sucesso no carnaval, prestigiava-se o cinema nacional. Época de grandes astros e estrelas, grandes diretores e muitas produções. Época em que a entrada do cinema era barato, e os filmes brasileiros ocupavam mais salas de cinema. Época em que parodiávamos filmes americanos e ríamos de nós mesmos. Época em que víamos nas telas um pouco da realidade social brasileira, sempre com muito bom humor. Época das chanchadas.
Este trabalho fala um pouco deste estilo cinematográfico que tanto agradou ao público e assumiu o papel de grande impulsionador do cinema nacional, do espetáculo de massas, da transformação de pessoas normais em astros internacionais e sustentáculo da indústria cinematográfica durante as décadas de quarenta e cinqüenta.
Por isso, Assim era a Atlântida, a Cinédia, a Brasil Vita Filmes, a Vera Cruz
Conjuntura Brasileira
No início da década de 50, Vargas volta ao Poder, eleito, agora, pelo voto direto. Tentando despedir-se de sua vocação agrária, o Brasil começa a percorrer os caminhos da industrialização. Observa-se o crescimento das grandes cidades brasileiras em função desse estímulo à industrialização, provocado, também, pelo êxodo rural. Marcado pelo contexto do populismo, o Brasil da época teve certa abertura política, o que facilitou o sucesso das chanchadas, que também tiveram apoio nos decretos sancionados pelo governo brasileiro, exemplificando:
O primeiro decreto feito pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda - no Estado Novo), que obrigava as salas de exibição a programarem pelo menos um filme nacional por ano (1939);
Criação do Conselho Nacional de Cinema, que tinha como objetivo estabelecer normas para os produtores, importadores, distribuidores, propagandistas e exibidores de filmes cinematográficos, regulando as relações entre os mesmos, além de promover, regular e fiscalizar a produção, o aprimoramento, a circulação, a propaganda e a exibição das películas cinematográficas brasileiras em todo território nacional (1942);
A concessão de isenções de direitos e taxas aduaneiras para importação de material destinado à indústria cinematográfica; lei aprovada no Congresso por pressão do nascente Sindicato Nacional da Indústria Cinematográfica (1949);
A obrigatoriedade de uma proporção mínima de um filme nacional para cada oito estrangeiros para a programação das salas de
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