Idosos e sua Representação no Cinema
Resumo: Este artigo apresenta uma análise de como a identidade contemporânea do idoso é imaginada por influência da representação deste grupo na mídia. Usamos o cinema brasileiro como principal meio de representação midiática analisado para a construção desse artigo.
Palavras chaves: Cinema brasileiro; idosos; identidade; infantilização cultural;
sexualidade na terceira idade.
“Aos 650 anos de idade Matusalém estava tão
conservado que não parecia ter mais de 375.”
(Tristan Bernard)
O termo identidade vem sendo elaborado desde os primórdios da humanidade, mas só passou a ganhar uma nova conotação a partir da atual era da globalização. A mesma nos impede de chegarmos a um consenso acerca do que pode ser entendido como identidade, nos levando a um novo fenômeno, a crise de identidade. Segundo Hall, o sujeito da Idade Moderna possuía uma identidade bem definida, sendo que essa aos poucos vem se fragmentando do final do século XX para cá:
Aquelas pessoas que sustentam que as identidades modernas estão sendo fragmentadas argumentam que o que aconteceu à concepção do sujeito moderno, na modernidade tardia, não foi simplesmente sua desagregação, mas seu deslocamento. Elas descrevem esse deslocamento através de uma série de rupturas nos discursos do conhecimento moderno. [...] A teoria de Freud de que nossas identidades, nossa sexualidade e a estrutura de nossos desejos são formadas com base em processos psíquicos e símbolos do inconsciente, que funciona de acordo com uma “lógica” muito diferente daquela da Razão, arrasa com o conceito do sujeito cognoscente e racional provido de uma identidade fixa unificada – o “penso, logo existo”, do sujeito de Descartes (HALL, 2001, p.34 e 36).
Dentro do tema identidade escolhemos lançar um olhar sobre os idosos, um grupo grande e representativo no panorama atual da sociedade. Para uma análise detalhada da identidade do idoso contemporâneo, estudaremos a sua representação no cinema brasileiro das duas últimas décadas com referências ao cinema mundial. Para isso selecionamos o filme Depois Daquele Baile (Roberto Bomtempo, Brasil, 2006) como produto midiático utilizado para o estudo da representação do idoso no cinema brasileiro em contraposição com outras obras cinematográficas que também representam o idoso no âmbito nacional e internacional. Iremos destacar as semelhanças e diferenças entre o filme selecionado e os demais filmes que se utilizaram da representação do idoso, contrapondo suas contribuições positivas ou não para a construção desse grupo identitário e os possíveis problemas existentes nessa construção.
O filme Depois Daquele Baile tem como um dos seus principais elementos a abordagem da sexualidade dos idosos e de suas relações afetivas. Os personagens Otávio (Marcos Caruso), Freitas (Lima Duarte) e Dóris (Irene Ravache) vivem uma espécie de triângulo amoroso. A retratação de um relacionamento desse tipo entre idosos pode ser considerada inovadora dentro do cinema nacional, ou no mínimo incomum dentro do panorama cinematográfico em termos gerais. A trama se desenvolve de maneira a desmistificar a impossibilidade desse tipo de relação, tratando-a de forma natural e divertida e demonstrando as intenções dos personagens. Otávio está perdidamente apaixonado por Dóris, Freitas está atraído por ela de forma menos intensa e mais carnal e Dóris é uma viúva que está à procura de um companheiro e ainda acredita na possibilidade de viver um grande amor.
Observando o roteiro e a construção dos personagens, excluindo-se a informação de que se trata de uma história sobre pessoas de idade avançada, poderíamos muito bem supor que o filme se trata de algo como uma comédia romântica. No caso, o que foi feito no longa-metragem foi uma inserção de personagens idosos e de peculiaridades características a esse grupo para diferenciar a trama como, por exemplo, o fato de Otávio ser apaixonado por Dóris há décadas, fato que só seria possível em se tratando de pessoas mais velhas, o que também particulariza o caso de Dóris por ela ter sido casada por muito tempo e
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