O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante
O cinema do cineasta galês Peter Greenaway é marcado por infinitas referências à pintura e à literatura, principalmente um de seus períodos preferidos: o Barroco, período que vai de por volta de 1580 a 1756. Isso se explica pelo fato de, antes de ser realizador, Greenaway ter formação na pintura. Garcia (2000, p. 74) sintetiza isso:
A expressão estética deste diretor constrói uma singularidade autoral, demonstrando sua opção por um cinema de referências, isto é, um certo tipo de obra de arte contemporânea marcada pelas citações da história da arte e recriada a partir de sua contextualização paródica. (GARCIA, 2000, p. 74).
Enquanto estudava no Walthamstow College of Art, na Inglaterra, Greenaway realizou seu primeiro curta-metragem, Death of sentiment (de 1962). Em 1965, Peter entrou para o Central Office of Information, onde trabalhou por quinze anos como montador e diretor, realizando curtas e médias-metragens experimentais. Seu interesse por cinema sempre foi demonstrado pela afeição por cineastas como Ingmar Bergman, Jean-Luc Godard e, principalmente, Alain Resnais. Isso pode ser atestado pelo próprio Greenaway (1993, p.11), pois segundo o mesmo, “o cinema não passa de uma base desdobrada” na qual se acresce a escrita, a luz, a estética e a linguagem. Na década de 1980, ele começou a realizar longas-metragens, como O contrato do amor (The draughtsman’s contract, de 1982) e Afogando em números (Drowning by numbers, de 1988), mas o sucesso e consagração internacionais vieram com O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante (The cook, the thief, his wife and her lover, de 1989).
O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante é um deleite para os olhos dos amantes e aficionados por cinema, se valendo de um maravilhoso exercício estético e de linguagem, poucas vezes visto nos últimos vinte anos. Sua fotografia, assinada pelo francês Sacha Vierny, colaborador de Greenaway em quase todos os seus longas-metragens, é de difícil descrição, pois passa por iluminações diversas, jogos de luzes e “brincadeiras” com as cores em geral. A parceria entre os dois pode ser entendida também pelo fato de Vierny haver feito a fotografia de dois dos principais filmes de Alain Resnais, cineasta preferido de Greenaway: Hiroshima, meu amor (Hiroshima mon amour, de 1959) e O ano passado em Marienbad (L'année dernière à Marienbad, de 1961).
A trama narra a história do gângster Albert Spica (Michael Gambon), que janta todas as noites no restaurante Le hollandais, o qual é dono junto de Richard Borst (Richard Bohringer), chef do mesmo, em companhia de seus capangas e sua esposa, Georgina (Helen Mirren). Cansada dos modos violentos e rudes do esposo, a mulher flerta com um solitário colecionador de livros, Michael (Alan Howard). Com a cumplicidade de Richard, os dois amantes fazem sexo às escondidas no banheiro e na despensa do restaurante, enquanto Albert devora prato após prato em sua mesa. No momento em que Albert descobre a traição da mulher, desfere uma perversa vingança contra Michael, que por sua vez será vingado por Georgina.
Os temas abordados são a vingança, as perversidades e exageros da existência humana, passando pela gula, a avareza, a soberba, a luxúria, etc., além dos contrastes entre o sagrado e o profano. As referências vão desde quadros famosos e filmes clássicos à passagens da Bíblia e à Revolução Francesa.
O filme tem início com uma fotografia extremamente avermelhada, algo que torna quase impossível de se identificar o que estamos vendo. A imagem é fixa por alguns instantes, enquanto observamos dálmatas comendo lixo, uma clara associação com o podre, ou algo do tipo. Logo após, sem nenhum corte, o plano se abre mais e vemos um movimento de câmera para cima, o chamado tilt ou panorâmica vertical. Nesse momento, um ser não identificável, vestido de vermelho, abre as cortinas (também vermelhas) e vemos o panorama da rua, onde Albert, junto de sua gangue,
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