Atendimento Odontológico
1º Artigo
A discriminação no atendimento odontológico a pacientes HIV+
Os autores examinam questões éticas do atendimento odontológico de pacientes HIV+ e apresentam um perfil da discriminação sofrida por esse tipo de paciente por ocasião de atendimentos odontológicos. São abordados também temas relativos à anamnese, a solicitação de exames sorológicos pelo cirurgião-dentista e ao sigilo profissional.
INTRODUÇÃO
A AIDS acentuou os problemas éticos relativos à saúde de toda população, pois nesta infecção existem padrões de conduta que muitos consideram imorais.
Tomamos como exemplo a Checoslováquia, a Austrália e a União Soviética onde as pessoas infectadas têm restrições de livre trânsito e, em Cuba, onde os pacientes HIV+ são detectados entre a população e vão para um centro de quarentena, submetendo-se à rígidos regulamentos (ALMEIDA; MUÑOZ (2), 1993).
Atrás de todo tipo de discriminação existe um preconceito. Pode ser o preconceito por "medo da doença" que só se explica por ignorância do que é a doença, como evitá-la, etc.
Infelizmente no Brasil as campanhas que tratam da AIDS ainda têm insistido muito sobre a letalidade da síndrome. Esta ênfase no "AIDS MATA" parece querer causar um impacto para que a população leiga fique mais atenta aos métodos preventivos. A validade desta estratégia de motivação é questionável, principalmente porque, por outro lado, não se esclarece adequadamente a população sobre o convívio com o doente que passa a ser, ele, motivo de medo e daí os lamentáveis relatos observados na imprensa leiga de crianças soropositivas expulsas de escolas, etc.
Soma-se a isso que a imagem da AIDS ainda está associada aos antes chamados "grupos de risco" - homossexuais, drogados, detentos - que, por sí só, já sofrem discriminação. Mesmo que não o seja, o doente será "suspeito" de pertencer a um desses grupos, o que torna ainda mais difícil a sua situação social.
A Odontologia brasileira está aprendendo a se relacionar com a AIDS neste contexto de medo e preconceito. O advento da AIDS trouxe grandes modificações nas rotinas dos consultórios odontológicos, como os novos aspectos relacionados com biosegurança: uso sistemático de barreiras de proteção (luvas, máscaras), ênfase nos descartáveis, apurados métodos de desinfecção, esterilização, etc.
Mas as mudanças não se referiram só às questões técnicas de biosegurança. O perfil do profissional também está tendo que mudar. A grande maioria dos dentistas da geração "pré-AIDS" não tinha que viver seu cotidiano profissional tendo que se relacionar com potenciais pacientes terminais, ou mesmo com o risco de se contaminar com uma doença desconhecida e tida como fatal.
A AIDS causou um grande impacto que levou de início alguns profissionais a ter condutas tidas como antiéticas: abandono de pacientes, recusas de atendimento, etc.
Também não podemos deixar de destacar as dificuldades encontradas por colegas dentistas que, não se recusando a atender adequadamente pacientes HIV+, se depararam com o medo, o preconceito e/ou ignorância da sociedade para com o contaminado ou doente com AIDS. Alguns desses colegas chegaram a perder toda a sua clientela quando esta se deu conta que seu dentista estava atendendo em seu consultório particular determinado paciente, publicamente conhecido como aidético. Para se precaver deste tipo de desdobramento, alguns profissionais tiveram, de início, de trabalhar no anonimato.
É importante relatar que estamos observando, com base em nossa experiência pessoal como docentes, que cresceu significativamente na última década o número de alunos dispostos a, depois de formados, atender pacientes HIV+. Hoje é grande também o número de profissionais interessados em participar de cursos de reciclagem sobre AIDS ou mesmo dispostos a participar de estágios em centros especializados no atendimento odontológico a pacientes HIV+. Hoje, inclusive, já
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