A GINÁSTICA SOB A ÉGIDE DO HIGIENISMO
No fim do século XVIII e início do século XIX, a economia européia estava em plena expansão, com a revolução industrial a necessidade de mão-de-obra em diferentes setores da produção, atrai as pessoas do campo para a cidade. Porém, o saneamento básico não acompanha o rápido e desordenado crescimento das cidades surgindo grandes epidemias que evidenciam a deteriorização do espaço urbano.
No início, a nobreza e a burguesia ficaram até certo ponto protegidos dessa deteriorização, pois pobres e miseráveis estavam bem longe das áreas residenciais burguesas. Sob esta visão, Erich Hobsbawn (1982), considera que a urbanização foi um imenso processo de afastamento das classes sociais. Por um outro lado, na visão da economia política a crença na perda do capital físico das massas conduzindo à ruína nacional. Levou a burguesia a se preocupar em controlar as populações assegurando a produtividade. A saúde das populações ou a saúde das nações foram eufemismos que fizeram a classe dominante enfrentas conseqüências econômicas, militares e sociais das enfermidades física dos trabalhadores.
Na metade do século XIX, a Europa organiza-se sanitariamente, visando reconstruir e aperfeiçoar o espaço urbano e a literatura do século XIX prende-se em argumentos que justifiquem o desenvolvimento dos exercícios ginásticos. Então, em nome da deusa Hygie, a ginática médica torna-se a ginástica higiênica. Um de seus argumentos foi o da degeneração da raça, que unia em torno de si os temores do crescimento urbano desordenado e o conseqüente estrago do ar, espaço, luz e infra-estrutura geral.
Para certos representantes ilustres da medicina como Tolosa Latour, membro da Academia Real de Medicina, na população infantil da época era predominante indivíduos com organismos atrofiados e doentes. Desequilibrados físico e moralmente, resultados mordidos das piores heranças. Desse modo, procuravam justificar que o quadro social de prostituição, alcoolismo, infanticídio e demência eram comuns. Em resumo, o tema degeneração aparece nos trabalhos dos higienistas de todos os países europeus.
Paralelamente, sob a visão da economia política, diferentes classes dominantes ativaram um conjunto de medidas higiênicas promovendo o exercício ginástico devido a já mencionada crença na perda do capital físico das massas conduzindo a ruína nacional. Nessa linha, temos como exemplo na Espanha, Sanz Romo (1895), que chegou a proclamar que "cada ginásio que fosse aberto fecharia um hospital".
Indo além, Carmem Lúcia Soares (1994) destaca que era necessário domesticar as massas urbanas submetidas a grandes jornadas de trabalho, incluindo mulheres e crianças, recebendo salários insuficientes até mesmo para uma alimentação adequada. Começa então a se delinear a função disciplinadora da ginástica, sobretudo a classe trabalhadora. Isto fica evidente na estrutura educacional inglesa do século XIX, onde jogos e desportos eram reservados as classes dominantes que freqüentavam as public schools, e ginástica era imposta a classe trabalhadora para discipliná-los ao trabalho e prepará-los como reserva militar, no qual Perter C. McIntosh denominou de "jogos e ginástica para duas nações em uma".
No Brasil o discurso de classe dominante volta-se para degeneração racial como mostra os séculos XIX e XX. Dela trataram Rui Barbosa, por exemplo, no se Parecer sobre o Decreto n° 7.247, de 19 de abril de 1979, ele defendia a ginástica obrigatória na escola primária e na secundária para enfrentar a ameaça da deterioração física da espécie humana, que ocorria até mesmo entre povos mais esclarecidos e progressistas. Para ele, esse enfraquecimento das raças, intelectualmente mais bem dotadas, era devido à qualidade debilitada da nutrição, à insalubridade das casas, as profissões fatigantes e malsãs, à mal dirigida educação pela mulher no período crítico de sua formação e ao desprezo da educação corpórea. E conclui com a pergunta: "Com que força não deveríamos arrancar da alma, nós da raça afligida por todas as debilidades, amarguras e humilhações da
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